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Analfabetismo entre negros é quase o triplo que entre brancos

Pei Fon/Folhapres
Imagem: Pei Fon/Folhapres

Ana Carla Bermúdez

Do UOL, em São Paulo

15/07/2020 10h00Atualizada em 15/07/2020 11h18

Resumo da notícia

  • Dados da Pnad mostram que o analfabetismo entre pretos ou pardos é quase o triplo do que entre brancos
  • Entre pretos ou pardos com mais de 60 anos, taxa chega a 27,1%
  • Para o mesmo grupo etário, entre os brancos, esse percentual é de 9,5%
  • Para pedagoga, práticas da educação infantil ligadas ao racismo estrutural têm influência sobre o desempenho de crianças negras

A taxa de analfabetismo entre pretos ou pardos no Brasil é quase três vezes maior do que o percentual observado entre brancos. Os dados são da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) Contínua Educação 2019, divulgada hoje pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

No ano passado, 3,6% das pessoas de 15 anos ou mais de cor branca eram analfabetas (isto é, não sabiam ler ou escrever um bilhete simples). Entre pessoas de cor preta ou parda, a taxa foi de 8,9%.

Já para brasileiros com 60 anos ou mais, o percentual de analfabetismo foi de 9,5% entre pessoas brancas. Entre pretos ou pardos do mesmo grupo etário, a taxa chegou a 27,1%. No Brasil, ao todo, 11 milhões de pessoas eram analfabetas em 2019.

Sheyla Alves Xavier, pedagoga e mestre em Educação pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), afirma que o racismo estrutural, presente em todas as relações sociais e econômicas no Brasil, contribui para que desigualdades entre negros e brancos sejam mantidas.

Na escola, ela diz que isso pode ser notado tanto na formação dos professores, que por falta de preparo não incentivam o estudo de conteúdos curriculares que façam referência à identidade negra, como também pela perpetuação de estereótipos negativos contra as pessoas negras.

"Não são trabalhadas práticas pedagógicas que evidenciem, que falem e reforcem a identidade negra, para que seja fortalecida a autoestima das crianças negras", diz. "É uma questão que eu percebo como prioritária: a baixa autoestima vai fazer com que muitas crianças não se sintam capazes no ambiente escolar", completa.

Fatores como esses, segundo ela, têm influência sobre o desempenho das crianças negras. "[É algo] Muito ligado à questão de identidade e à forma como as pessoas negras são retratadas na sociedade".

Segundo a pedagoga, "muitos estereótipos negativos contra pessoas negras circulam e se fortalecem no ambiente escolar por meio de brincadeiras, do racismo recreativo que acontece entre as crianças, com a permissividade de adultos".

"Isso é um reflexo também da formação dos professores", afirma, mencionando a falta de preparo dos docentes para lidar com questões étnico-raciais.

Sheyla menciona ainda ser muito comum que famílias negras, por questões econômicas, não tenham condições de manter seus filhos na escola pelo mesmo tempo que as famílias brancas, já que esses jovens precisam começar a trabalhar mais cedo.

"Todas as famílias, de qualquer cor ou raça, podem ter dificuldades. A questão é que a gente percebe isso em uma maior incidência justamente entre pessoas pretas ou pardas", concorda Adriana Beringuy, pesquisadora do IBGE.

Um indicador de abandono escolar trazido pela Pnad mostra que, entre os jovens de 14 a 29 anos que não completaram o ensino médio, 71,7% são pretos ou pardos. Nesse grupo, 38,7% citaram como motivo para o abandono a necessidade de trabalhar e 29,1% disseram não ter interesse em estudar.

Para a pedagoga, é difícil tornar a educação atrativa para jovens negros em um contexto em que essa população "convive diariamente com a violência"."Estamos em um país em que a gente está convivendo com o extermínio da juventude negra", afirma.

Perto da meta

Em 2019, segundo a Pnad Contínua Educação, a taxa de brasileiros com 15 anos ou mais que não sabia ler ou escrever um bilhete simples ficou em 6,6% —percentual que fica próximo da meta de 6,5% que deveria ter sido cumprida em 2015. Isso significa que o país ainda tem 11 milhões de analfabetos, apesar de pouco mais de 200 mil pessoas terem deixado essa estatística de 2018 para 2019.

Entre as regiões, o Nordeste tem a maior taxa (13,90%).