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Problema financeiro é maior barreira para universitários negros, diz estudo

Ezio Augusto Rosa Junior conseguiu entrar em universidades públicas duas vezes, mas largou os cursos por falta de dinheiro - Arquivo Pessoal/Ezio Augusto Rosa Junior
Ezio Augusto Rosa Junior conseguiu entrar em universidades públicas duas vezes, mas largou os cursos por falta de dinheiro Imagem: Arquivo Pessoal/Ezio Augusto Rosa Junior

Monise Cardoso

Colaboração para o UOL

09/08/2020 04h00Atualizada em 11/08/2020 17h24

Resumo da notícia

  • Segundo pesquisa da Uerj, 37% dos homens pretos e pardos e 36% das mulheres pretas e pardas abandonariam a universidade por problemas financeiros
  • Para coodenadora do levantamento, a insegurança sobre a manutenção da graduação recai com mais intensidade sobre pretos e pardos
  • No estudo, 24% das mulheres pretas e pardas afirmam que o fator emocional, logo após a dificuldade financeira, é isso que mais as atinge
  • O índice é de 29% entre as mulheres brancas; para homens brancos, a falta de disciplina para estudar é o maior problema (31%)

Morador do Cangaíba, bairro periférico da região leste da cidade de São Paulo, Ezio Augusto Rosa Junior, de 26 anos, conseguiu por duas vezes o tão sonhando ingresso na rede federal de ensino superior. Em ambas, com menos de um ano de estudo, o jovem foi obrigado a abrir mão do curso superior de pedagogia por falta de dinheiro.

A história de Junior é exemplo da dificuldade que mais afasta estudantes negros das universidades, aponta o relatório "Raça, gênero e saúde mental", fruto de análise realizada pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa) da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Segundo o estudo, 37% dos homens pretos e pardos e 36% das mulheres pretas e pardas abandonariam a universidade por problemas financeiros.

O levantamento com dados de 2018 foi feito com 424,1 mil estudantes de 65 instituições federais de ensino superior no país.

Junior não conseguiu voltar a estudar e hoje trabalha como gerente de redes sociais em uma agência de publicidade.

Em 2013, eu abandonei a Unifesp [Universidade Federal de São Paulo] porque tive que escolher entre trabalhar e estudar. Em 2016, eu entrei para Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro, mas estava morando em outro estado, sozinho, sem emprego e sem família para me ajudar
Ezio Augusto Rosa Junior

Na época, Junior aprendeu a trançar cabelo e, às quintas-feiras, produzia e vendia em doses cachaça artesanal, na Cantareira, uma praça famosa de Niterói. Foi a maneira que encontrou para se sustentar durante os oito meses em que permaneceu na cidade.

Em 2018, 58% dos estudantes pretos e pardos das universidades federais —cerca de 6 em cada 10— tinham renda familiar per capta de até 1,5 salário mínimo (R$ 1.431, na época, e hoje, pouco mais de R$ 1.500). Entre os brancos, o percentual com essa renda era menor, de 36,5%. A pesquisadora do Geema e uma das autoras da análise, Poema Euristenes Portela, ressalta que esse dinheiro ainda tem que custear diversas demandas,

A insegurança sobre a manutenção da graduação recai com mais intensidade sobre pretos e pardos. Muitas vezes, há gasto com alimentação, transporte, materiais didáticos e moradia, e a preocupação com a geração de renda para o próprio sustento e da família
Poema Euristenes Portela, pesquisadora da Uerj

Outro dado que afeta o desempenho dos estudantes é o fator emocional: 24% das mulheres pretas e pardas afirmam que, logo após a dificuldade financeira, é isso que as atinge. Entre as brancas, o índice é de 29%, o que faz deste o maior motivo de desistência entre as estudantes. Entre os homens dos dois grupos, o tema sequer foi citado. Para homens brancos, a falta de disciplina para estudar é o maior problema, apontado por 31%.

amanda - Arquivo Pessoal/Amanda Ferreira - Arquivo Pessoal/Amanda Ferreira
Amanda Ferreira chegou a cursar medicina, mas deixou o curso por não conseguiu pagar as mensalidades
Imagem: Arquivo Pessoal/Amanda Ferreira

A ex-estudante de medicina Amanda Ferreira, 24, moradora de Sorocaba, enfrentou dificuldades relacionadas à falta de dinheiro e à saúde mental durante o semestre que cursou na IMEPAC (Instituto Master de Ensino Presidente Antônio Carlos), universidade particular do interior de Araguari, em Minas Gerais.

Eu fiz quatro anos de cursinho. No terceiro, meu pai, que era minha esperança de apoio financeiro, faleceu. Precisei me virar com uma dívida enorme e também a depressão
Amanda Ferreira, que lteve que abandonar o curso de medicina

Segundo ela, as condições para matrícula eram incomuns. Era preciso, disse Amanda, pagar à vista R$ 38 mil, valor total do semestre, ou arcar com R$ 7.200 e indicar um fiador com renda de R$ 14.400. "Por sorte, um colega da minha mãe topou ser meu fiador. Eu consegui a entrada com uma grana do emprego do meu pai. Para sobreviver nos semestres seguintes, eu contava com o seguro de vida do meu pai, mas o dinheiro não foi liberado por questões contratuais", lembra.

Ela cursou os seis meses sem conseguir pagar as mensalidades. Conviveu com perrengues financeiros e inseguranças diárias fruto das comparações com os colegas. "Eu dividia aluguel com outra estudante e uma vez não consegui pagar minha parte. Por vezes, saía com os amigos só com R$ 10 no bolso. Morria de vergonha de saberem que eu não pagava as mensalidades", relata a jovem.

No final do semestre, ela largou o curso e ficou com uma dívida de R$ 38 mil, que ainda hoje está ativa. Amanda diz que só reuniu forças para retornar à vida acadêmica neste ano, em que se prepara para o Enem e pretende ingressar na rede pública.

Eu era a única aluna negra da sala e tinha colegas que iam pra faculdade com carros caros e mesadas altas. Ainda precisava estudar dez vezes mais pra dar conta de coisas que eles aprenderam na educação básica e eu não

Entre 2013 e 2018, mais de 645 mil pretos, pardos e indígenas ingressaram no ensino superior com ajuda da lei de cotas. Muitos deles foram a primeira geração de suas famílias a chegar à universidade.

"Tal realidade gera uma série de angústias: sentimento de inadequação, discriminação e deslegitimação, além da pressão por bom desempenho —uma questão frequente para pessoas pretas e pardas dentro do espaço acadêmico", afirma Poema, da Uerj.

A universidade em que Amanda estudou oferecia suporte psicológico gratuito para os estudantes, com consultas médicas e também terapias em grupo. "Pensei várias vezes em suicídio, mas me preocupava muito com a minha mãe. As sessões me ajudavam a ter momentos de alívio", afirma.

De acordo com a pesquisa, a maioria dos estudantes nunca procurou atendimento psicológico ou psiquiátrico. Quem mais procura o serviço são as mulheres brancas (41% recorreram ao tratamento). Por outro lado, apenas 21% dos homens negros procuraram ajuda. Outra diferença está na rede usada pelos dois grupos raciais: só 45% das pessoas brancas recorreram ao Sistema Único de Saúde (SUS), que atende 65% dos estudantes pretos e pardos.

Uma das informações que a pesquisa traz é que, no que se refere à assistência estudantil, apenas 9,4% dos graduandos recebem algum tipo de bolsa permanência e 1% participa de atividades de esporte e lazer.

Dadas as conclusões a que o relatório chega, os pesquisadores sugerem ações para melhorar o ambiente universitário, como ampliar a disponibilidade do atendimento psicológico e incrementar as políticas de assistência estudantil. Essas ações podem diminuir o efeito da desigualdade econômica, como moradia e auxílio financeiro, particularmente para as pessoas pretas pardas.