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Alunos contam como conseguiram tirar 1.000 na redação do Enem; veja modelo

Candidatos que tiraram 1.000 na redação do Enem dão dicas para conseguir um bom desempenho - Getty Images
Candidatos que tiraram 1.000 na redação do Enem dão dicas para conseguir um bom desempenho Imagem: Getty Images

Ana Carla Bermúdez

Colaboração para o UOL

02/08/2021 04h00

Tirar 1.000 na redação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) não é tarefa fácil: na edição 2020 do exame, realizada em janeiro deste ano, apenas 28 dos mais de 2,7 milhões de participantes conquistaram a nota máxima na prova.

Alcançar esse desempenho, por outro lado, não deve ser encarado como algo impossível, relatam ao UOL candidatos que receberam a nota em suas redações. O segredo, segundo eles, envolve bastante preparo: é preciso conhecer bem o modelo da prova, consumir conteúdos de tipos variados —como notícias, literatura e filmes— e, principalmente, não economizar na hora de treinar a redação.

Veja, a seguir, algumas dicas desses candidatos, que também compartilharam com o UOL suas redações de nota 1.000 (leia os textos ao final da reportagem). O Enem 2021 acontece nos dias 21 e 28 de novembro. A redação é no primeiro final de semana.

Conheça o modelo da prova

Conhecer o modelo da prova e as competências exigidas na redação do Enem, segundo os candidatos que tiraram 1.000, é um passo fundamental na busca pela nota máxima.

O Enem cobra do candidato a redação de um texto dissertativo-argumentativo, que deve conter uma proposta de intervenção ao problema apresentado na proposta da prova. Em linhas gerais, portanto, o participante deve apresentar opiniões sobre o tema apresentado na proposta e justificar a defesa de um ponto de vista.

Ingrid Ascef - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A estudante Ingrid Ascef
Imagem: Arquivo pessoal

"O Enem pede, para a redação, uma técnica bastante específica. Se você souber o que eles querem, dá para fazer o texto e saber se está bom ou não", explica Ingrid Ascef, 24, ex-aluna do cursinho Poliedro e uma das 28 pessoas que tiraram a nota máxima na redação do Enem 2020. Hoje, ela cursa medicina na FURG (Universidade Federal do Rio Grande), no Rio Grande do Sul.

No Enem, cada redação é avaliada de acordo com cinco competências estabelecidas pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), órgão responsável pelo exame. São elas:

  1. Domínio da escrita formal da língua portuguesa;
  2. Compreender o tema e não fugir do que é proposto;
  3. Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista;
  4. Conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação;
  5. Respeito aos direitos humanos.

Em 2020, o tema foi o estigma associado a doenças mentais na sociedade. A estudante de medicina Raíssa Piccoli, 20, diz que conhecer cada uma das competências —e entender o que é demandado em cada uma delas— foi extremamente importante para que ela alcançasse a nota 1.000 no Enem 2020. Ex-aluna do cursinho Anglo, hoje ela estuda na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).

Ela conta que, conforme treinava para a redação do Enem, se preocupava em observar o que os professores apontavam como erros e acertos no que dizia respeito às competências em seus textos.

Raíssa Piccoli Fontoura - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A estudante Raíssa Piccoli Fontoura
Imagem: Arquivo pessoal

"Eu sempre buscava anotar a competência com que eu tinha mais dificuldade em determinada redação, em que eu havia sido penalizada, para poder melhorar especificamente nela", afirma.

O Inep divulgou, em dezembro de 2020, uma cartilha sobre a redação do Enem. O documento explica o que é esperado do participante em cada uma das cinco competências avaliadas na redação e também diz o que pode fazer com que o candidato zere a prova. Veja aqui.

Dê importância ao treino

De nada adianta conhecer os critérios e o modelo exigidos, mas não colocá-los em prática: para os candidatos nota 1.000, o treino também foi muito importante no processo de preparo para a redação do Enem.

"A prática é fundamental para a redação, para chegar na prova confiante", diz Raíssa, que tinha como meta fazer três redações por semana ao longo do seu ano de estudos, envolvendo o Enem e outros vestibulares.

Ingrid conta que também não economizava no treino. "Acho que é importante fazer pelo menos uma redação por semana", diz ela.

Raíssa conta que uma das estratégias que desenvolveu ao longo dos treinos foi a de fazer uma estruturação do que poderia colocar na redação antes mesmo de escrever o texto.

"Uma coisa importante é sempre circular as palavras principais do tema para evitar tangenciar ou se esquecer de falar algo importante", afirma. "Eu sempre fazia uma estrutura antes, colocando os argumentos importantes para o tema e anotando o que poderia usar de repertório. Me sentia mais segura fazendo essa estruturação."

Procure ler e construir um bom repertório

O uso de repertório sociocultural (como a citação de livros ou filmes) é avaliado como parte de uma das competências exigidas na redação do Enem. Para Ivan Carlos Silva Melo, 26, que também faz parte do grupo dos participantes nota 1.000 na redação do Enem 2020, a leitura é importante para a construção dessa bagagem —mas não é a única forma.

Ivan Carlos Silva Melo - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O estudante Ivan Carlos Silva Melo
Imagem: Arquivo pessoal

O jovem, que está perto de terminar o curso de engenharia civil no IFCE (Instituto Federal do Ceará), também dá aulas particulares de matemática —motivo que, segundo ele, o leva a prestar o Enem todos os anos.

"É importante ler muito, mas também ser eclético nesse sentido. Nunca ler só conteúdo, porque o Enem não é só isso", diz ele. "Às vezes, as pessoas querem só estudar e acabam não tendo lazer, mas o lazer também é importante. Pode ser que do lazer, ao assistir a um filme, surja uma citação de repertório", afirma o jovem.

"É bom ler um pouco de tudo para não ser surpreendido por um tema que você nunca ouviu falar e não sabe o que colocar", concorda Ingrid.

Ivan Carlos conta que, depois de ler a proposta de redação, usa um sistema similar ao de Raíssa: "Elenco os filmes que vi e posso usar para aquele tema, quais músicas têm a ver com aquele tema, qual série por ventura eu posso usar. Eu elenco várias coisas que posso usar naquela redação".

Veja as redações nota 1.000 dos candidatos do Enem 2020

Texto de Raíssa Piccoli Fontoura:

De acordo com o filósofo Platão, a associação entre saúde física e mental seria imprescindível para a manutenção da integridade humana. Nesse contexto, elucida-se a necessidade de maior atenção ao aspecto psicológico, o qual, além de estar suscetível a doenças, também é alvo de estigmatização na sociedade brasileira. Tal discriminação é configurada a partir da carência informacional concatenada à idealização da vida nas redes sociais, o que gera a falta de suporte aos necessitados. Isso mostra que esse revés deve ser solucionado urgentemente.

Sob essa análise, é necessário salientar que fatores relevantes são combinados na estruturação dessa problemática. Dentre eles, destaca-se a ausência de informações precisas e contundentes a respeito das doenças mentais, as quais, muitas vezes, são tratadas com descaso e desrespeito. Essa falta de subsídio informacional é grave, visto que impede que uma grande parcela da população brasileira conheça a seriedade das patologias psicológicas, sendo capaz de comprometer a realização de tratamentos adequados, a redução do sofrimento do paciente e a sua capacidade de recuperação. Somada a isso, a veiculação virtual de uma vida idealizada também contribui para a construção dessa caótica conjuntura, pois é responsável pela crença equivocada de que a existência humana pode ser perfeita, isto é, livre de obstáculos e transtornos. Esse entendimento falho da realidade faz com que os indivíduos que não se encaixem nos padrões difundidos, em especial no que concerne à saúde mental, sejam vítimas de preconceito e exclusão. Evidencia-se, então, que a carência de conhecimento associada à irrealidade digitalmente disseminada arquitetam esse lastimável panorama.

Consequentemente, tais motivadores geram incontestáveis e sérios efeitos na vida dos indivíduos que sofrem de algum gênero de doença mental. Tendo isso em vista, o acolhimento insuficiente e a falta de tratamento são preocupantes, uma vez que os acometidos necessitam de compreensão, respeito e apoio para disporem de mais energia e motivação no enfrentamento dessa situação, além de acompanhamento médico e psicológico também ser essencial para que a pessoa entenda seus sentimentos e organize suas estruturas psicológicas de uma forma mais salutar e emancipadora. O filme "Toc toc" retrata precisamente o processo de cura de um grupo de amigos que são diagnosticados com transtornos de ordem psicológica, revelando que o carinho fraternal e o entendimento mútuo são ferramentas fundamentais no desenvolvimento integral da saúde. Mostra-se, assim, que a estigmatização de doentes mentais produz a escassez de elementos primordiais para que eles possam ser tratados e curados.

Urge, portanto, que o Ministério da Saúde crie uma plataforma, por meio de recursos digitais, que contenha informações a respeito das doenças mentais e que proponha comportamentos e atitudes adequadas a serem adotados durante uma interação com uma pessoa que esteja com alguma patologia do gênero, além de divulgar os sinais mais frequentes relacionados à ausência de saúde psicológica. Essa medida promoverá uma maior rede informacional e propiciará um maior apoio aos necessitados. Ademais, também cabe à sociedade e à mídia elaborar campanhas que preguem a contrariedade ao preconceito no que tange aos doentes dessa natureza, o que pode ser efetivado através de mobilizações em redes sociais e por intermédio de programas televisivos com viés informativo. Tal iniciativa é capaz de engajar a população brasileira no combate a esse tipo de discriminação. Com isso, a ideia platônica será convertida em realidade no Brasil.

Texto de Ivan Carlos Silva Melo:

No livro "Quincas Borba", de Machado de Assis, o protagonista, Pedro Rubião, morreu louco e sozinho, após fugir do hospício, sendo que ele era frequentemente estigmatizado enquanto vivo. Fora da ficção, no Brasil atual, a situação das pessoas com problemas mentais também é preocupante, seja pelo preconceito sofrido, seja pela falta de tratamento humanizado. Diante desse quadro, é necessário que ações sejam tomadas, tanto pelas escolas quanto pelo Poder Público, com o fito de solucionarmos esse problema.

Nesse contexto, como os transtornos mentais não são tão facilmente verificáveis quanto problemas físicos, é comum que as pessoas acometidas desse tipo de doença sejam alvo de preconceito de pessoas às quais, muitas vezes, acham que aquilo é "frescura". Infelizmente, esse preconceito, às vezes devido à falta de conhecimento do tema, traz efeitos devastadores, pois desestimula o doente a procurar tratamento precoce, quando é mais fácil o tratamento. Assim, o tratamento tardio faz que, por exemplo, a depressão seja a doença mais incapacitante, segundo a Organização Mundial de Saúde.

Outrossim, o tratamento de doenças mentais, no Brasil, não é feito de forma humanizada, muitas vezes excluindo o paciente do convívio social. Mesmo o conhecido psiquiatra Juliano Moreira tendo implantado, no início do século 20, a ideia de um tratamento mais voltado a tentar reintegrar os doentes à sociedade, isso não foi suficiente para que se eliminasse a lógica do manicômio como uma prisão, na qual quem entra dificilmente sai.

Portanto, é notória a estigmatização sofrida pelos doentes mentais no Brasil, o que se faz necessário extinguir. Para tanto, cabe às escolas educarem os alunos a respeito do tema, por meio de palestras, de modo que os futuros adultos não ajam com preconceito. Ademais, cabe ao Poder Público, por meio do Executivo, aprimorar os programas de saúde mental, com vistas a haver um tratamento mais humanizado, que tente reinserir o paciente à sociedade, fazendo que, consequentemente, diminua-se os afastamentos devido à depressão.

Por fim, com essas medidas, ter-se-á um Brasil diferente daquele de "Quincas Borba", no qual Pedro Rubião era estigmatizado até pela criança que ele salvara.

Texto de Ingrid Ascef:

Na obra "Quincas Borba", de Machado de Assis, é narrada a trajetória de Rubião que, após receber grande herança e atrair vários amigos, é acometido por uma enfermidade mental, fazendo com que seus conhecidos se afastassem e que fosse abandonado em um hospital psiquiátrico. Fora da ficção, o estigma associado às doenças mentais também é presente na sociedade brasileira, haja vista que muitos indivíduos com transtornos dessa ordem são excluídos da sociedade e que muitas pessoas com sintomas de desequilíbrio mental não buscam ajuda.

Em primeiro lugar, é relevante destacar que o estigma associado às doenças mentais faz com que as pessoas acometidas por essas enfermidades sejam excluídas do meio social. Nesse sentido, Nise da Silveira, médica psiquiatra, revelou que muitas famílias se envergonham por terem um ente com transtornos mentais e optam por o deixar, de forma vitalícia e quase sem visitas, em hospitais especializados. Desse modo, o preconceito com doenças mentais na sociedade brasileira gera a ocultação, em clínicas médicas, das pessoas que não se enquadram dentro de um perfil esperado de normalidade, engendrando a exclusão social.

Ademais, o estigma e a falta de informação sobre doenças mentais fazem com que muitos indivíduos, com sintomas dessas patologias, não busquem ajuda especializada. Nesse contexto, pesquisas aventadas pela Organização Mundial da Saúde revelaram que menos da metade das pessoas com os primeiros sinais de transtornos, como pânico e depressão, procura ajuda médica por temer julgamentos e invalidações. Assim, o preconceito da sociedade brasileira com as doenças mentais faz com que a busca por tratamento, por parte dos doentes, seja evitada, aumentando, ainda mais, o índice de brasileiros debilitados por essas mazelas.

Portanto, é necessário que o Estado, em conjunto com o Ministério da Saúde, informem a população sobre o que são, de fato, as doenças mentais e a importância do tratamento para que o estigma associado a elas finde. Tal tarefa será realizada por meio de expansivas campanhas publicitárias nos veículos de comunicação em massa, como a internet e a televisão, com profissionais de saúde especializados no assunto, o que fará com que o povo brasileiro seja elucidado sobre essas patologias rapidamente. Sendo assim, episódios de abandono e preconceito associados a transtornos mentais, como o de Rubião, estarão apenas nos livros.

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