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Como o nióbio, metal queridinho de Bolsonaro, pode aparecer no Enem 2019

Nióbio - Reprodução/Wikipedia
Nióbio Imagem: Reprodução/Wikipedia

Carolina Cunha

Colaboração para o UOL

03/10/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Exaltado por Bolsonaro, nióbio pode ser tema de ciências, atualidades e humanas
  • Meio ambiente e história também podem cobrar esse conteúdo
  • Metal é usado em aplicações de tecnologia de ponta e siderurgia

Durante a conferência do G20, no Japão, Jair Bolsonaro divulgou um vídeo que viralizou na internet. O presidente exibia bijuterias feitas a partir do nióbio e que custariam mais do que um anel de ouro. Entusiasta da exploração do metal há anos, Bolsonaro o defende como a salvação econômica do país.

Até há pouco tempo desconhecido da maioria dos brasileiros, nos últimos meses o nióbio ganhou os noticiários e as redes sociais, sempre cercado da ideia de que o Brasil tem uma mina de ouro nas mãos e não sabe explorar.

Mas o que é o nióbio e como ele pode cair na prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2019? O UOL conversou com Cláudio Hansen, professor de geografia e atualidades do Descomplica, para entender como o assunto pode ser abordado. Confira e esteja preparado, caso o metal queridinho pelo presidente seja tema do exame.

O nióbio (Nb) é um metal maleável, brilhante e versátil, extraído principalmente dos minerais columbita e pirocloro. Na tabela periódica, leva o número atômico 41. Ele possui um elevado ponto de fusão, se mantendo sólido até 2.468°C, o que o torna resistente a temperaturas extremas.

O metal não serve só para fazer bijuteria. Ao contrário, esse uso é incomum. Sua aplicação principal é na indústria siderúrgica. O nióbio é aplicado como elemento de liga em aços, tornando o material mais forte e resistente. Mas raramente é usado em grandes concentrações. Menos de meio quilo de nióbio é usado para dar resistência a uma tonelada de minério de ferro.

O metal também é usado em aplicações de tecnologia de ponta como baterias de carros elétricos, lentes ópticas, aceleradores de partículas, implantes ortopédicos, turbina de avião e motores de foguetes.

Descartaria a ideia de falar de química ou de geografia física, por exemplo, da estrutura geológica do mineral. O nióbio pode ser tema da prova de ciências humanas. porque se tornou um assunto atual, que desperta um interesse mais amplo da sociedade
Cláudio Hansen, professor de geografia e atualidades do Descomplica

No Brasil e no mundo

O Brasil não é o único país a ter o nióbio. O metal também existe em países como Austrália, Canadá, Congo, Moçambique, Nigéria, Ruanda e Rússia. Mas somos de longe o maior produtor mundial. O Brasil detém 98% das reservas ativas no mundo. As jazidas conhecidas estão em Minas Gerais, Amazonas e em Goiás.

Segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), as reservas brasileiras somam 842,4 milhões de toneladas, cujo valor total é estimado em US$ 22 trilhões (o dobro do potencial de riqueza do pré-sal). A maior mina em operação no mundo é localizada na cidade de Araxá (MG) e concentra 75% da produção brasileira.

Essa mina é uma propriedade privada e pertence à Companhia Brasileira de Metalurgia e Minerac?a?o (CBMM), do grupo Moreira Salles. A empresa também tem controladores japoneses, sul-coreanos e chineses, o que levou a algumas críticas de Bolsonaro sobre o perigo de a riqueza nacional estar na mão de estrangeiros.

O nióbio brasileiro era inicialmente exportado sob a forma de minério bruto e concentrado. Hoje, cerca de 80% do produto é vendido na forma de ferronióbio, uma liga metálica composta por 1/3 de nióbio e 2/3 de ferro. Ou seja, sua venda tem origem no processamento integrado à metalurgia e tem como destino o setor siderúrgico. O restante é direcionado a aplicações especiais.

O professor ressalta que o Brasil é um dos grandes produtores mundiais de minérios e a atividade mineradora possui um peso cada vez maior na economia brasileira.

Desde que o Brasil entrou nesse cenário de crise, a gente busca uma solução milagrosa para a economia. Por isso o nióbio é tão falado. Muita gente vê o metal como uma possibilidade de salvação da pátria. Mas não é tão simples
Cláudio Hansen, professor de geografia

O quase monopólio de reservas e da produção de nióbio concede ao Brasil uma posição destacada no cenário internacional. O fato também desperta e alimenta teorias de conspiração que dizem que o Brasil vende o metal "a preço de banana", de que as reservas nacionais estão sendo "surrupiadas" por empresas privadas e que estaríamos perdendo bilhões ao não controlar o preço do produto.

Bolsonaro divulga bijuteria de nióbio em live

Band Notí­cias

Apesar do seu uso crescente e das inúmeras possibilidades de aplicação, o nióbio ainda não tem a importância e o valor que possuem o ouro e o petróleo. Seu mercado ainda é limitado. Nove em cada dez compradores da CBMM são indústrias que fabricam aço. Dona do maior parque siderúrgico do planeta, a China é o principal comprador do nióbio brasileiro.

O preço do nióbio reage de acordo com a Lei da oferta e da demanda. No Brasil, a cotação é controlada principalmente pela empresa CBMM e se mantém estável ao longo dos anos. O setor teme que se subir muito, o mercado passe a comprar o metal de outros países como o Canadá, o segundo maior produtor. Além disso, a função do nióbio pode ser substituída por outros metais, como o vanádio e o titânio.

O mercado internacional consome 120 mil toneladas de nióbio por ano. A projeção é que em 2030, a demanda da liga ferro com o elemento seja de 188 mil toneladas. O mercado está em crescimento, mas não de forma explosiva. Considerando o consumo atual, somente a jazida de Araxá pode atender a demanda mundial por 200 anos. A ampla oferta faz com que os depósitos do Brasil não estejam sob ameaça.

Relações econômicas e meio ambiente

Segundo o professor, outra forma que o nióbio pode aparecer no Enem seria em alguma questão que trate das relações econômicas entre países. O Brasil é um tradicional exportador de matérias-primas e importador de produtos industrializados. Essa relação pode aumentar ainda mais com o acordo comercial fechado este ano entre o Mercosul e a União Europeia.

O sonho do Brasil se tornar uma potência pelo nióbio é impulsionado pela crise econômica. "O vestibular da FUVEST já cobrou o tema da reprimarização da economia brasileira e sua pauta exportadora", diz Hansen. Esse conceito é relacionado ao processo de desindustrialização que o Brasil vive. As indústrias nacionais, em sua maioria, não são capazes de competir com a concorrência internacional, como a China, por exemplo. Isso favoreceu investimentos voltados para a exportação de produtos agrícolas e minerais, que fazem parte do setor primário da economia.

Para Hansen, a exploração do nióbio segue o modelo de exportação de commodities. "Essa é uma característica que vem desde o Brasil colônia. Não adianta a gente aumentar a produção de nióbio, porque já somos o maior produtor do mundo. Não temos como crescer muito se a estratégia não mudar e a gente começar a agregar tecnologia e valor a produtos manufaturados".

O presidente Bolsonaro imaginou o Vale do Nióbio, uma versão "mineral" do Vale do Silício, o maior polo de inovação tecnológica do planeta. Para isso, o país teria que estabelecer uma política de alto investimento em tecnologia e pesquisa de ponta. Pesquisas nos laboratórios da CBMM enfocam na melhoria dos processos produtivos e em novas aplicações do metal. Mas ainda estamos longe de sermos uma superpotência do nióbio.

Outra maneira de cobrar o nióbio no Enem é pelo ângulo do meio ambiente. Toda atividade mineral gera impacto ambiental. Pessoas contrárias à exploração de jazidas de nióbio apontam os danos que a atividade causaria em locais ainda não explorados, como a Amazônia e reservas indígenas.

Nos últimos meses, o Brasil também passou por desastres ambientais como o rompimento das barragens das mineradoras Vale em Brumadinho (MG) e Samarco em Mariana (MG). No entanto, a extração do nióbio em Minas Gerais adota um método mais moderno. Os reservatórios de rejeitos de Araxá foram construídos com o método conhecido como "a jusante", técnica mais segura do que o alteamento a montante, tecnologia agora vetada no país.

Hansen também destaca a importância histórica da mineração no Brasil, fato que poderia cair no Enem. "Podem relacionar o metal com os ciclos econômicos. Minas Gerais tem a maior reserva de nióbio do mundo. No passado, a região cresceu com o ouro."

O Ciclo do Ouro surgiu no final do século 17, quando entrou em declínio o Ciclo da Cana-de-Açúcar. Foi um período em que a principal atividade econômica era a extração e exportação do metal. As primeiras grandes reservas foram encontradas em Minas Gerais e tornaram-se a principal fonte de renda da economia brasileira.

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