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Aluno nota mil vira youtuber e dá dicas aos candidatos do Enem 2019

Lucas Felpi, ex-aluno do colégio Rio Branco que tirou nota mil na redação do Enem - Arquivo pessoal
Lucas Felpi, ex-aluno do colégio Rio Branco que tirou nota mil na redação do Enem Imagem: Arquivo pessoal

Giorgia Cavicchioli

Colaboração para o UOL

22/10/2019 04h00

Lucas Felpi, 18, foi um dos 55 alunos que tiraram nota mil na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2018. Quase um ano depois da prova, ele está matriculado na Universidade de Michigan, EUA, onde cursa ciência da computação.

O Enem, no entanto, ainda faz parte de sua rotina: o agora o estudante universitário compartilha dicas com quem irá fazer a prova de 2019 em um canal do YouTube com 160 mil seguidores.

"Recebi muitos pedidos de ajuda. Como minhas aulas começaram só em setembro, me dediquei desde fevereiro a produzir conteúdo para o canal e dividir o que eu aprendi", conta Felpi, que também atingiu uma notável pontuação na prova de matemática do Enem de 2018, 988 pontos.

A redação de Felpi viralizou no ano passado e gerou muita curiosidade nas redes sociais. Não só pela nota máxima, mas pelo fato de ele ter citado, entre outras referências, a série britânica Black Mirror, que retrata a inquietação coletiva em torno da tecnologia na atualidade —o tema da redação de 2018 foi "manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet".

"Eu citei um episódio da quarta temporada [Hang the DJ] em que um aplicativo pareava casais e você tinha que ficar com aquela pessoa por um tempo. Quis mostrar que a escolha de uma máquina era imposta", diz. Felpi se apresenta no perfil do Instagram como "o garoto do Black Mirror no Enem".

A pedido do UOL, Felpi selecionou dicas para quem vai fazer o Enem 2019.

Dicas para a redação

Felpi conta, em um dos vídeos do seu canal, como foi de 760 pontos para mil pontos na redação. "No meu segundo ano do ensino médio, fiz a prova como treineiro. Busquei a minha evolução e vi que é possível sim tirar a nota máxima, se você treinar e se atentar aos detalhes", diz.

Mesmo não gostando de apostas em temas possíveis, Felpi acredita que o tema da redação deste ano deve ser mais técnico do que os anos anteriores. "Estávamos acostumados com temas como violência contra a mulher, preconceito racial e religioso, minorias. Mas acho que esse ano vai quebrar esse padrão. Não acho que vai cair alguma questão de preconceito contra minorias. O governo vai tentar evitar ao máximo. Acho que a prova vai ser muito mais técnica, de interpretação de texto, mais senso comum", diz.

1) Escrever com frequência

"Em 2017, eu fazia uma redação a cada 15 dias. Em 2018, mudei para uma redação por semana e esse foi um dos principais fatores para minha evolução. Eu reclamei bastante? Reclamei, fiquei cansado, mas com certeza isso ajudou. Escrevi sobre muitos temas, aumentando meu repertório e desenvolvendo o meu estilo de escrita."

2) Ler e estudar redações nota mil

"Eu peguei o material do Inep, que reúne redações exemplares, e fiz uma leitura ativa, observado a estrutura, o estilo. Lembro da sensação de pensar que é eu estava muito longe daquele nível. Por isso, eu e outros 30 alunos nota mil de 2018 reunimos nossas redações na cartilha "Redação a mil". É gratuita, vale muito a pena ler."

3) Pensar com um corretor

"Você precisa saber qual é a estrutura de um texto dissertativo-argumentativo, entender o que é bem-visto pelos corretores e conhecer bem a estrutura do texto."

4) Ter um repertório

"Na minha primeira prova, usei muito o senso comum e o raciocínio lógico. Não tinha uma tese, nem referências. Por exemplo: usei frases, como a do Einstein: 'É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito"'. Não é uma frase ruim, mas é batida, o avaliador não sente impacto. Uma coisa que me ajudou foi anotar todos os repertórios que usei ao longo do ano num caderno. E depois reler tudo."

5) Desenvolver autenticidade

"Não basta ter repertório, você tem que mostrar que entende do que está falando. Então, se for citar algo, cite algo que você gosta, que domina, o avaliador vai perceber. Eu, por exemplo, citei Black Mirror, George Orwell, Zygmunt Bauman, a Escola de Frankfurt. São referências que gosto muito realmente."

6) Profundidade argumentativa

"Evite teses que dizem o problema existe, é importante e só isso. Fiz em 2017, escrevi: 'Há muitos problemas na educação dos surdos'. É uma tese superficial. Quais são as causas? As consequências?"

7) Planeje seu texto

"Meu amigo e professor Eduardo Valadares, do Descomplica, diz: 'Não comece uma redação sem saber onde você quer chegar'. Fiz isso em 2017, e foi muito frustrante. Montem um esqueleto da redação, saibam o que vão dizer em cada parágrafo."

8) Encontre a sua fórmula de escrita

"O tempo é sim muito curto, não deixe para descobrir na hora como irá escrever. Descubra antes a sua fórmula mágica, aquela que dá certo para você. A minha é começar com uma citação, ter dois núcleos de desenvolvimento e a conclusão, na qual faço menção a algo já dito."

Estratégia de prova

Para o aluno nota mil, o ideal é que o candidato comece o Enem pela redação. "Começar pela redação vai tirar da sua cabeça tudo aquilo que você tem. Eu acho que é melhor escrever o rascunho, depois resolver as questões e deixar uma meia hora final para reler a redação e corrigir o que precisar. Aí você pode passar a limpo", afirmou.

No dia anterior e no dia da prova de manhã, Felpi não estudou nem revisou nenhum conteúdo. "A minha dica é não pensar na prova como o fim do ano. A gente coloca um valor muito grande na prova e fica muito nervoso", explica.

Segundo Lucas, no dia em que realizou o Enem, ele marcou um jantar com alguns amigos para depois da prova, o que ajudou a reduzir a pressão que ele estava sentindo. "Eu ia andar um pouco de manhã, depois ia para prova e depois ia para um jantar com os amigos. Foi bom pensar que aquilo era só um compromisso do meu dia", lembra.

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