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Renda familiar, bolsa e mãe com diploma impactam desempenho no Enem

ADAILTON DAMASCENO/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Imagem: ADAILTON DAMASCENO/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Ana Paula Bimbati

Do UOL, em São Paulo

17/11/2021 02h00

Alunos bolsistas em colégios particulares, de famílias com renda mais alta ou com mães com o ensino superior completo têm um desempenho melhor no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) do que participantes pobres e de escolas públicas.

Essa é a conclusão de um estudo feito por pesquisadores da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e disponibilizado hoje pela Agência Bori. No levantamento, foram usados dados da edição de 2018 da prova, do Censo Escolar e do IBGE.

Segundo os pesquisadores Rafael Oliveira Melo, pós-graduado pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), e Anne Caroline de Freitas, professora e doutoranda em ensino na USP (Universidade de São Paulo), as disparidades socioeconômicas afetam mais a nota dos alunos do que a infraestrutura das escolas onde estão inseridos.

"A conclusão mais importante que levantamos é essa: as disparidades socioeconômicas são refletidas de alguma forma no desempenho de um aluno que faz o Enem", destaca Freitas.

Fatores que elevam as notas

Considerando os resultados dos municípios, os principais fatores que elevam a nota da prova objetiva do exame estão relacionados à alta porcentagem de:

  • Estudantes bolsistas de colégios particulares;
  • Alunos de família com renda alta;
  • Participantes cujas mães têm um trabalho "de alta especialização" ou concluíram o ensino superior.

Segundo Melo, o termo "alta especialização" se refere às classificações feitas pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), responsável por divulgar os microdados do Enem. Estão neste grupo: professoras, policiais, corretoras de imóveis, gerentes, médicas, engenheiras, dentistas, advogadas e juízas, por exemplo.

"Temos um grupo da sociedade que é excluído dentro de toda a formação básica e o exame só espelha que ele [Enem] é mais uma barreira para essas pessoas", afirma Freitas.

Quando se fala no desempenho de cidades, fatores como porcentagem de estudantes indígenas, escolas em espaço rural e a proporção de alunos pobres influenciam na queda da nota.

"A cada 5% a mais que uma cidade possui de alunos de família de renda alta, há um aumento médio de cerca de 6,25 pontos na prova objetiva do Enem", explica Melo.

Os pesquisadores citam perspectivas apresentadas pelo sociólogo Pierre Bourdieu para explicar porque esses fatores influenciam no desempenho dos alunos.

Famílias com condições menos favoráveis acabam se preocupando mais com questões de curto prazo, elas têm essa pressão. E como a educação é uma situação de longo prazo, acaba ficando em segundo plano. Já famílias com melhores condições econômicas e culturais conseguem investir mais nas experiências escolares dos filhos."
Rafael Oliveira Melo, pesquisador

Apesar do cenário, a professora Freitas acredita que é importante avaliar os dados e usá-los como subsídio para políticas públicas. "Todas essas faltas não podem ser imobilizantes aos alunos e órgãos responsáveis. É importante a gente saber, mas não paralisar", justifica.

Influência na nota da redação

Na nota da redação, além dos critérios socioeconômico, os pesquisadores também chegaram a um outro fator determinante: a região do Brasil que o estudante reside.

"A análise regional nos ajuda a entender que existe um impacto na nota da redação. O que não conseguimos confirmar, mas temos de hipótese é que a variedade linguística e até mesmo fatores culturais podem influenciar nesse resultado", analisa Freitas.

Reportagem do UOL mostrou, por exemplo, que um cursinho foi criado em uma comunidade indígena depois de os estudantes deixarem em branco a redação do Enem 2019, que pedia para falar sobre o tema "Democratização do acesso ao cinema". Os participantes daquela região nunca tinham entrado em uma sala de projeção de filmes.

"Existem outras linguagens, relações culturais que não estão sendo ouvidas, nem consideradas nesse processo do Enem", pontua a pesquisadora.

Com as informações que temos agora e das edições do ano passado e de 2021, vamos conseguir perceber como as desigualdades foram acentuadas com a pandemia de covid-19. Neste ano, por exemplo, já não vamos ter tantas pessoas não brancas prestando o Enem."
Anne Caroline de Freitas, professora e pesquisadora

Ao evidenciar que critérios socioeconômicos afetam mais o desempenho dos alunos do que a infraestrutura das escolas, a dupla de pesquisadores acredita que levanta uma discussão sobre a importância de se "produzir políticas públicas a longo prazo e que mudem questões estruturais".

Ferramenta pode auxiliar municípios

A ideia dos pesquisadores é disponibilizar em breve uma ferramenta com os cruzamentos de dados feitos por eles nesse estudo, mas com o filtro de município. "É uma forma da cidade filtrar sua informação, ver como está em relação ao país e estruturar políticas a partir disso", explica Melo.

Na pesquisa divulgada hoje, o pesquisador já trouxe um exemplo do município de Itapipoca, no Ceará. Com os dados de 2018, foi possível observar que a porcentagem de escolas com laboratórios de informática e as aulas de espanhol disponibilizadas aos alunos do 3º ano do Ensino Médio foram fatores importantes para aumentar a nota.

Na outra ponta, no entanto, "os fatores econômicos, raciais e de perfil instrucional das mães dos estudantes fazem com que a nota [da cidade] fique abaixo da média nacional". A baixa oferta de bolsas em colégios particulares e a infraestrutura das escolas são critérios que diminuem a média.

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