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Aposentada de 86 anos se forma em direito para "ajudar os idosos"

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Bruna Souza Cruz

Do UOL, em São Paulo

2015-09-16T05:00:00

16/09/2015 05h00

O último dia 29 de agosto foi especial para a Maria Francisca Coruja. Aos 86 anos, a aposentada se formou em direito pelo Centro Universitário La Salle, em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre. Ela participou da colação de grau com mais 21 colegas, fez o juramento da profissão e comemorou, toda feliz, com a família.

“Foi tudo muito lindo. Recebi até homenagem. Eu sempre sonhei em ter um ‘Dra.’ [doutora] no meu nome. O sonho era medicina, mas agora não daria tempo”, brinca a formanda. “Escolhi o direito porque é uma área muito bonita e quero ajudar os idosos, mesmo que [de maneira] voluntária. Todas as pessoas deveriam conhecer [o direito].”

A recém-formada mal terminou a graduação e já começou a rotina de estudos para sua próxima missão: ser aprovada no exame da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil): "Já comprei os livros e comecei a estudar. É muita coisa, mas eu vou passar. Vou estudar muito. Se não passar na primeira, eu passo na segunda, na terceira!”

Coruja, como gosta de ser chamada, fez graduação e pós-graduação em pedagogia no início de sua carreira e atuou 35 anos na área de educação. Mas com a morte do marido, em 1998, e de sua mãe, em 2009, a aposentada decidiu retomar os estudos “para ocupar o tempo e não ficar parada”. Segundo ela, os estudos a ajudaram a superar as perdas.

Se bem que ficar parada nunca foi uma realidade para a aposentada. Coruja coleciona entre 45 e 50 certificados de cursos diversos, em áreas tão diversas como culinária, italiano, espanhol e contabilidade. “Eu não paro nunca. E nunca vou parar. Moro sozinha e é uma maneira de ocupar meu tempo. Além disso, em todo contato com outras pessoas há sempre um aprendizado”, comenta.

Arquivo pessoal
Convite de formatura de Coruja, como gosta de ser chamada Imagem: Arquivo pessoal

Aluna nota 10

A formanda tem orgulho de dizer que nunca faltou um dia sequer durante os anos da graduação e que entregou todos os trabalhos exigidos pelos professores. Ela até arranjava um tempinho para ir ao bar com os colegas de faculdade e organizar churrascos com os futuros advogados.

“Já estou sentindo muita falta de todo mundo, das minhas correrias”, revela Coruja, que gastava diariamente 45 minutos de trem para chegar até Canoas -- a viúva mora em Porto Alegre. “Além do trem, eu tinha que pegar um ônibus ou andar 20 minutos até a estação. Estourei minha coluna carregando todos aqueles livros”, relembra com bom humor.

Coruja conta ainda que passava o dia inteiro com a “cara nos livros”. Levantava às 6h, tomava café e começava a estudar. Só parava para almoçar, tomar seu “chazinho”, ir à igreja. E, claro, para a soneca das 14h. Após o jantar, ela “pegava nos livros e ia” para faculdade.

Alfabetização precoce

Filha de um professor e de uma dona de casa, Coruja aos cinco anos já sabia ler e escrever. Quando entrou na escola, surpreendeu seus professores. “Naquela época era um quase um fenômeno uma criança com essa idade já saber ler e escrever. Quando eles viam que eu já sabia, eles ficavam espantados”, lembra.

A bacharel em direito ressalta que sempre foi incentivada pelos pais a continuar os estudos e que passou isso para os dois filhos quando eles eram jovens. Ambos concluíram a graduação. O mais velho, de 66 anos, fez direito e a mais nova, de 59, educação física.

“Acho que o conhecimento é imprescindível na vida e ele não se esgota. Você sempre tem o que aprender. A vida deve ser uma eterna aprendizagem. A aprendizagem é como se fosse um alimento. E eu sinto a necessidade de aprender mais e mais. Nunca vou parar”, afirma.

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