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Professor dá aula como drag queen a jovens para falar sobre preconceito

Jonathan Chasko se veste de drag queen e discute homofobia em sala de aula - Arquivo pessoal
Jonathan Chasko se veste de drag queen e discute homofobia em sala de aula Imagem: Arquivo pessoal

Giorgia Cavicchioli

Colaboração para o UOL, de São Paulo

09/10/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Educador se transforma em drag queen em palestras sobre preconceito
  • Vítima de bullying na infância, ele quer combater a homofobia
  • Mães de alunos até doam roupas para o professor usar

Jonathan Chasko, 27, cresceu em uma família de professoras e caminhoneiros, em Cascavel, no Paraná. Desde pequeno, preferia imaginar-se dando aula para outras crianças do que dirigindo carros ou caminhões. Decidiu ser professor, mas não contava que uma outra paixão iria invadir a sua vida e sala de aula: a drag queen Sofia Ariel.

A personagem nasceu na época em que Chasko fazia teatro e começou a trabalhar em uma balada como hostess. Em 2016, porém, o professor de língua portuguesa fez uma aposta ousada: montou-se de Sofia Ariel e foi dar aula no cursinho pré-vestibular em que trabalhava.

A intenção do educador era usar a personagem para abrir espaço para o diálogo sobre a homofobia e os seus efeitos na sociedade. Para sua surpresa, os estudantes não resistiram à iniciativa. Pelo contrário, aproveitaram a oportunidade para tirar as suas dúvidas e dividir as angústias. Logo, a aula ganhou as redes sociais e até programas de televisão.

Desde então, Sofia Ariel é convidada para falar com jovens sobre como romper preconceitos.

A minha atuação com a Sofia é em palestras. Quero transformá-la na drag queen que invade o espaço acadêmico
Jonathan Chasko

Chasko quer romper com a imagem de um ambiente acadêmico composto por homens brancos e heterossexuais. "Ser artístico não significa ser menos científico", defende o educador.

Combate à homofobia

Jonathan Chasko vestido de Sofia Ariel para dar aulas - Arquivo pessoal
Jonathan Chasko vestido de Sofia Ariel para dar aulas
Imagem: Arquivo pessoal
"Deixei de dar aula no cursinho por conta da agenda da Sofia. A noite é cansativa. Entreter as pessoas é muito cansativo", conta. De segunda a sexta-feira, Chasko se dedica às aulas para alunos, a partir do sexto ano do ensino fundamental, dividindo-se entre uma escola na rede estadual e outra na particular. Nas noites de sábado e domingo, Sofia é quem entra em ação.

A experiência como drag, afirma o professor, é um disparador contra situações de bullying em sala de aula, um mal do qual já foi vítima.

Cheguei a ser arremessado de uma escada por alunos que não aceitavam o fato de eu ser gay
Jonathan Chasko

Durante a sua trajetória escolar, Chasko só pensava em ser um professor diferente. "Meus colegas me chamavam de 'bichinha' e eu só queria que alguém os mandasse parar. Mas os professores fingiam que nada estava acontecendo", lembra.

Estudou sobre diversidade e como abordar as questões de maneira saudável dentro de sala de aula. Quando entra em sala de aula, logo no primeiro dia, apresenta-se como gay para as turmas com alunos maiores. Em salas com crianças, só toca no assunto se surgir alguma necessidade.

Uma dessas situações aconteceu na última semana, em uma turma do sexto ano. Segundo o educador, um aluno colou um papel nas costas de outro em que dizia: "Sou gay".

Chasko pegou o papel e disse: "Pois é. Eu sou gay", diz. A atitude do professor gerou um debate da sala de aula sobre homofobia e crimes de ódio.

Mesmo com alguns momentos delicados, a rotina de aceitação dentro da escola é boa. Segundo o professor, colegas, responsáveis e alunos o respeitam muito. Algumas mães, conta, doam peças de roupas para que o professor componha mais looks para a sua drag. "Elas adoram! Sempre me trazem alguma roupa que não querem mais. Antes, eu usava só as roupas da minha mãe. Agora, eu quero fazer um bazar ou doar as roupas que tenho", afirma.

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