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Decotelli: "Brancos trabalham com imperfeições em currículo sem incomodar"

O ex-ministro da Educação Carlos Alberto Decotelli - Luis Fortes/Ministério da Educação
O ex-ministro da Educação Carlos Alberto Decotelli Imagem: Luis Fortes/Ministério da Educação

Ana Carla Bermúdez

Do UOL, em São Paulo

01/07/2020 19h23Atualizada em 01/07/2020 19h29

Ex-ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli avalia que o racismo influenciou em seu processo de desgaste no governo Jair Bolsonaro (sem partido). "Há muitos brancos com imperfeições em currículo trabalhando sem incomodar ninguém", afirmou ao UOL.

Nomeado para o cargo na semana passada, Decotelli pediu demissão na tarde de ontem após a deflagração de uma crise pelas revelações de que havia informações falsas em seu currículo.

Nas redes sociais, o fato de Decotelli ser negro passou a ser foco de debates sobre a sua demissão. Entre outros pontos, as discussões lembraram que ministros do governo Bolsonaro como Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) também tiveram mentiras ou erros apontadas em seus currículos, mas permaneceram nos cargos.

No caso de Decotelli, universidades da Argentina e da Alemanha desmentiram as informações de que ele teria concluído um doutorado e um pós-doutorado nas respectivas instituições. Também vieram à tona acusações de plágio na dissertação de mestrado apresentada pelo ex-ministro à FGV (Fundação Getulio Vargas).

Mas a permanência de Decotelli no governo, segundo ele, ficou insustentável após a FGV divulgar que o ex-ministro nunca foi professor "de qualquer das escolas da Fundação".

Em nota, a instituição declarou que Decotelli atuou apenas "nos cursos de educação continuada, como professor colaborador, nos programas de formação de executivos".

Apesar de não atuar como professor fixo, portanto, o ex-ministro lecionou na instituição, mas na condição de professor colaborador.

Para Decotelli, a FGV atuou por "interesses obscuros, não declarados, na intenção de apoiar outro ministro a ser indicado".

Ele afirma ter ministrado sua última aula pela instituição, na disciplina de Administração de Recursos de Longo Prazo no MBA de Finanças, na noite de ontem.

"[Me sinto] Destruído e massacrado na minha integridade como professor", disse o ex-ministro. "Mesmo assim, após o ocorrido, lecionei ontem à noite utilizando a plataforma Zoom, em respeito aos alunos, que não têm culpa da fraude da FGV".

Decotelli diz ter pedido hoje o seu desligamento da instituição. O ex-ministro também enviou à reportagem fotos de prêmios que diz ter recebido por suas atividades na FGV. Todos se referem a ele como "professor" e datam de 2011 a 2016.

FGV - Reprodução/Arquivo pessoal - Reprodução/Arquivo pessoal
Imagem de um dos prêmios recebidos por Decotelli por suas atividades exercidas na FGV
Imagem: Reprodução/Arquivo pessoal

Ao UOL a FGV reiterou que Decotelli atuou "apenas nos cursos de educação continuada, como professor colaborador". "Como tal, deu aula ontem, o que corrobora as informações prestadas, repita-se, de que atuava como professor nos cursos de educação continuada", disse a instituição em nota.

A fundação declarou ainda que irá apurar, por meio de uma comissão específica, todas as denúncias que dizem respeito a um eventual plágio na dissertação de mestrado apresentada pelo ex-ministro. Decotelli nega ter cometido plágio, mas disse que revisará o trabalho "por respeito ao direito intelectual dos autores e pesquisadores citados".