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Conteúdo publicado há
5 meses

Cortes afetam pesquisas de vacinas contra covid e funcionamento, diz UFRJ

Tatiana Campbell

Colaboração para o UOL, no Rio

12/05/2021 12h23Atualizada em 12/05/2021 15h02

A reitoria da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) informou que com o corte orçamentário mais de dez setores podem ser afetados, entre eles, a pesquisa de duas vacinas contra a covid-19, testagem para o coronavírus, insumos para pesquisa e funcionamento de leitos hospitalares (veja lista abaixo).

A professora Denise Pires Carvalho lamentou hoje em entrevista coletiva os cortes no orçamento que "inviabilizam o funcionamento das universidades". Caso o governo não libere a verba necessária, os cortes podem gerar um "apagão na ciência e tecnologia".

A reitora da UFRJ destacou que, mesmo com ensino remoto, os laboratórios de pesquisa e os hospitais da instituição continuam funcionando.

"Nossa conta de luz não é decorrente só das salas de aula. Como manter leitos abertos, como manter laboratórios funcionando, como manter o sonho da vacina brasileira sem que consigamos pagar nossa conta de luz, nossa conta de água? E o que é mais grave: os contratos de segurança e limpeza dos nossos prédios."

O pró-reitor de Planejamento, Desenvolvimento e Finanças, Eduardo Raupp, disse que a UFRJ está "em suspenso".

"Estamos com um orçamento que corresponde a três meses do nosso funcionamento e estamos esperando aprovação do restante do valor. Nós poderemos honrar nossos contratos até julho e dependeremos da capacidade financeira de nossos fornecedores se continuarão funcionando ou não."

Raupp destaca que atualmente, com R$ 81,7 milhões disponíveis, o funcionamento vai depender da situação financeira de fornecedores terceirizados de limpeza e segurança, por exemplo.

"Vamos conseguir comprar insumos mesmo sem verba para fazer pagamento? As empresas terão capacidade financeira de seguir pagando salário sem receber da UFRJ?"

Mesmo que tudo seja liberado, estamos conclamando que o governo faça um aporte. Isso não é uma fatalidade, é uma escolha política de uma locação de recursos

Eduardo Raupp, pró-reitor da UFRJ

O orçamento da UFRJ para este ano é de R$ 299,1 milhões —desse total, R$ 152,2 milhões ainda estão indisponíveis. Segundo a reitoria, R$ 111,1 milhões aguardam a votação de emendas no Congresso Nacional, o que não tem data prevista para ocorrer.

Os outros R$ 41,1 milhões foram bloqueados, conforme anunciado em abril. De acordo com a UFRJ, para que a universidade consiga se manter até o final deste ano, é necessário que ao menos os R$ 111,1 milhões sejam liberados com urgência.

Previsão de fechamento parcial

Segundo a Reitoria da UFRJ, com o orçamento atual, atividades como testagem para covid-19, leitos hospitalares, manutenção, bolsas acadêmicas e o investimento para retorno das aulas presenciais correm o risco de serem afetadas já em julho ou no mais tardar em meados de outubro.

Questionada sobre a situação dos alunos da universidade, Denise Pires disse que a formação de alunos da graduação e pós-graduação está em alerta.

"A parte de aulas práticas não poderá voltar, o que irá afetar a formação de diversos alunos. Houve mais impacto na pós-graduação, já que o ambiente de pesquisa precisa de uma melhor limpeza. Nossa previsão é de que o fechamento será parcial, vamos lutar para que nem o fechamento parcial aconteça, mas as atividades de pesquisa não serão retomadas e outras podem parar."

De acordo com o professor Carlos Frederico Leão Rocha, vice-reitor da UFRJ, a universidade chegou "no limite do que é possível".

"Não é simplesmente cortar ou diminuir contrato de limpeza, por exemplo, nós refizemos o contrato com a Light [concessionária de energia elétrica] e renegociamos a dívida. Chegamos no limite do que é possível. De fato, vamos ter que cortar atividades. 'Qual o filho que você vai preferir?' É essa questão que está sendo colocada."

Veja o que pode ser afetado pelo corte:

  • Testagem para covid-19;
  • Pesquisa de 2 vacinas contra a covid-19 em fase de testes pré-clínicos na UFRJ;
  • Redução de leitos hospitalares;
  • Redução de atendimentos nos hospitais;
  • Manutenção predial;
  • Limpeza geral e limpeza hospitalar;
  • Segurança;
  • Bolsas acadêmicas;
  • Insumos para pesquisa;
  • Compra de equipamentos de TI para melhoria do ensino remoto;
  • Aquisição de livros, e-books, bases de dados;
  • Investimentos para o retorno presencial em condições de biossegurança;
  • Investimentos ligados à assistência estudantil;
  • Conclusão de obras;
  • Projetos de combate à incêndio e pânico,
  • Projetos de acessibilidade;
  • Pagamentos de energia elétrica e água.

Entenda a situação da UFRJ

No dia 29 de abril, a UFRJ recebeu do governo federal a notícia de que R$ 41,1 milhões de seu orçamento discricionário haviam sido bloqueados. Orçamento discricionário é a verba que a instituição tem para bancar seu custeio (água, luz, limpeza, segurança) e investimento em infraestrutura física.

Orçamento discricionário da UFRJ em 2021 - UFRJ - UFRJ
Orçamento discricionário da UFRJ em 2021
Imagem: UFRJ

Orçamento discricionário da UFRJ entre 2011 a 2021, em milhões de reais - UFRJ - UFRJ
Orçamento discricionário da UFRJ entre 2011 a 2021, em milhões de reais
Imagem: UFRJ

Segundo a reitoria, desde 2012, foram realizados cortes sucessivos. Naquele ano, a universidade tinha R$ 773 milhões em caixa.

Desde então, o ciclo de subfinanciamento prosseguiu: em 2013, caiu para R$ 735 milhões; em 2014, para R$ 611 milhões; depois, R$ 606 milhões; em seguida, R$ 541 milhões; R$ 487 milhões; R$ 430 milhões; R$ 389 milhões; R$ 386 milhões e, agora em 2021, R$ 299 milhões.

Em valores brutos, houve uma perda de ao menos R$ 474 milhões de 2012 até agora.

"Mesmo com o orçamento condicionado vindo a ser aprovado, diante desse bloqueio a gente tem orçamento, no máximo, até o mês de agosto ou setembro. É uma situação muito crítica", afirmou Eduardo Raupp.

"Se tivermos o orçamento nos patamares de 2020 poderemos tentar terminar o ano com as atividades que são para além da formação de estudantes", finalizou a reitora da UFRJ.