PUBLICIDADE
Topo

Estamos em um 2020 parte 2, diz estudante, após semestre perdido na escola

Alunos e pais ainda não se adaptaram ao ensino remoto - August de Richelieu/Pexels
Alunos e pais ainda não se adaptaram ao ensino remoto Imagem: August de Richelieu/Pexels

Ana Paula Bimbati

Do UOL, em São Paulo

25/05/2021 04h00

Não era dessa forma, em meio à pandemia de covid-19, longe dos amigos e assistindo aula pelo computador, que a estudante Luiza Barros, 16, imaginou que terminaria o Ensino Médio. "Na minha vivência, não percebo quase nenhuma diferença do ano passado para esse, a sensação é que estamos vivendo um 2020 parte 2", disse.

Luiza estuda em uma escola particular em São Paulo e tem participado das aulas à distância. Ela diz enxergar o trabalho e esforço "máximo possível" dos professores, mas garante que estudar em casa é difícil. "Não só pela sensação de impotência em relação à pandemia, mas pela frustração de não podermos estar na escola e estudarmos de forma mais concentrada."

O que "salvou" o primeiro semestre de João Pedro Fernandes Botelho, 15 —de acordo com ele—, foi começar a estudar em uma escola técnica. Ele diz que as aulas online passaram a ser mais integradas, com "mais apoio" dos professores e a quantidade de horas ao vivo, mesmo que a distância, o ajudou a ter um primeiro semestre melhor em relação a 2020 —diferentemente da impressão de Luiza.

Luiza Barros, aluna do ensino médio, diz que estudar em casa é difícil - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Luiza Barros, aluna do ensino médio, diz que estudar em casa é difícil
Imagem: Arquivo pessoal

"A absorção de conteúdo está sendo bem mais aproveitada, porque posso tirar dúvidas no momento da explicação e também tenho contato direto com o professor por uma plataforma", contou o estudante, que está no 1º ano do Ensino Médio.

Para Mozart Neves Ramos, titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP) e membro do CNE (Conselho Nacional de Educação), o primeiro semestre de 2021 está realmente bem parecido com o que foi vivenciado em 2020 pelos alunos brasileiros.

"A principal razão foi a ausência de uma coordenação por parte do MEC [Ministério da Educação] no enfrentamento da pandemia no campo da educação. Ouvi o ministro falando que repassou R$ 500 milhões, mas esse é o ponto de partida. É importante existir uma coordenação nacional", pontua.

Ricardo Henriques, superintendente-executivo do Instituto Unibanco, também diz que a ausência do MEC causou desafios ainda maiores para a educação em meio a pandemia. Para minimizar os impactos, o especialista defende que se pense um retorno seguro, mas que envolva outros setores além da educação.

Não dá para atribuir todo esforço de retorno presencial à área da educação. A agenda da aprendizagem é intersetorial, como temos uma combinação de crises sanitária e econômica, precisamos fazer uma retomada articulada com saúde e assistência social.
Ricardo Henriques, superintendente-executivo do Instituto Unibanco

Henriques pondera que é importante que os governos municipais, estaduais e federal olhem para questão da renda familiar, já que muitos estudantes, principalmente do Ensino Médio, precisaram abandonar os estudos para contribuir com as contas em casa.

Devemos ter, por exemplo, um plano de conectividade digital para atender as regiões mais pobres, uma avaliação diagnóstica apoiando estados e municípios para saber como os alunos estão voltando e voltarão.
Mozart Neves Ramos, membro do CNE

Os dados de aprendizagem já indicam um caminho difícil. Uma pesquisa feita pela rede estadual de São Paulo, por exemplo, mostrou que para chegar ao aprendizado de 2019, será preciso crescer 11 vezes mais em matemática do que normalmente os alunos aprendem em um ano.

Para Luiza, que diz ter privilégios em relação a outros alunos, as desigualdades continuam aumentando. "Não é justo que alguns estudantes tenham todos os materiais e outros alunos não consigam nem entrar na aula. As oportunidades são muito desiguais", conta.

E esse é o cenário dos filhos da operadora de caixa Dalila Fortunato. Eles continuam enfrentando as mesmas dificuldades relacionadas ao ano passado. A falta de equipamentos como celular ou notebook dificultam o acesso de Bernardo, 6, e Diego, 9.

"Por mais que eu me esforce, considero um ano perdido, infelizmente, para eles em relação ao ensino", conta. O filho mais novo, Bernardo, começou o 1º ano do Fundamental este ano, já Diego sabe ler e escrever, mas enfrenta dificuldade para desenvolver a leitura de textos mais complexos.

bernardo - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Bernardo, 6 anos, está no 1º ano do Ensino Fundamental, e divide o celular com o irmão para fazer as atividades escolares
Imagem: Arquivo pessoal

Com um celular em casa, os irmãos dividem o tempo para fazer as atividades e conseguir aprender. Se não fosse alfabetizada, conta Dalila, os obstáculos de ensino à distância dos filhos seriam ainda maiores. Como a aula presencial dura duas horas por dia, ela diz preferir não gastar com o transporte dos dois, além da babá que fica com eles enquanto trabalha, então mantém os irmãos no ensino remoto.

Em realidades diferentes, a preocupação entre as três famílias é a mesma: como será o segundo semestre letivo de 2021? As atividades presenciais serão retomadas?

Para Luiza, que vai encerrar o ciclo da Educação Básica, a dúvida é se conseguirá entrar na universidade ou até mesmo se terá uma viagem de formatura. Para os filhos de Dalila, a pergunta é se o básico será entendido por eles até o fim deste ano ou se Diego, seu filho mais velho, vai conseguir ler frases mais complexas.

Em relação à volta às aulas, o governo estadual liberou as atividades presenciais, mas as escolas podem atender até 35% dos alunos matriculados, seguindo um esquema de rodízio por horário ou dia da semana.

O secretário estadual de Educação, Rossieli Soares, falou na semana passada que o governo estuda mudar as regras de capacidade máxima. As prefeituras podem decidir se reabrem ou não as escolas, mas devem seguir os protocolos definidos no Plano São Paulo.

Com a vacinação irregular, professores reclamam da falta de segurança para permanecerem dentro de salas de aula, mesmo seguindo o protocolo sanitário. Amanhã, o governo de São Paulo deve falar sobre as medidas de segurança nas unidades de ensino.