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Comunicação impossível

Ricardo Moraes/Reuters
Imagem: Ricardo Moraes/Reuters
Guilherme Perez Cabral

18/09/2017 04h00

Não vale o debate. Retomaria, em textão nas redes sociais, minha indignação em relação aos moralistas defensores intransigentes de um “Brasil livre” que ninguém sabe ao certo o que é. Semana passada, combatiam, aos xingos, a exposição que não vimos, nem eu nem os combatentes. Seria agressivo no textão. Tão agressivo quanto eles, avolumando o monte de palavras que circulam por aí, pouco lidas e mal compreendidas. Todos falam suas devidas bobagens e ninguém se comunica.

Pensava nisso e lembrei da aluna que me alertou dizendo que não entende quase nada do que digo. Um primo meu, bêbado numa festa, disse a mesma coisa e depois gargalhou. Ri junto amarelado.

Vindo a crítica de certos sujeitos com os quais convivo, aliviaria minha culpa. Sugeriria leituras. Olhar o mundo à nossa volta, para além do próprio umbigo, também é importante. Às vezes, para as palavras mais difíceis, o dicionário ajuda. Vindo dela, tão boa aluna, prometi tentar melhorar. Quanto ao meu primo, a verdade é que, para mim, ele também é um alienígena.

Sonhei com tudo isso. No pesadelo, minha língua enrolava e eu não conseguia me comunicar. Falava enrolado, quase engolia a língua, e ninguém entendia nada. Meu inconsciente captou a nossa realidade, o pesadelo real.

Temos falado, falado e ninguém se comunica. Não nos entendem e não entendemos os outros. Veja o exemplo dos combatentes pelo Brasil Livre. Criticam a exposição e na enrolação da língua, o que chega a mim é estrume. Certamente, não creem que é cocô o que sai de suas bocas. Para eles, estrume sou eu. A língua de todo mundo enrolou. Ou se “intestinou” adoecida numa disenteria verbal generalizada?

Pela comunicação, diz Mead, “participamos do outro”. No diálogo, podemos compreender o outro, suas posições, ampliando o nosso universo existencial, com novos pontos de vista. Se, depois de uma conversa, você entende o que digo, se concorda comigo, apesar de nossas diferenças, se eu concordo com você, temos, então, um significado comum, uma ideia compartilhada. Nesse sentido, participamos um do outro. Nos identificamos, em alguma medida.

Acontece que não é nada fácil colocar em palavras (meras convenções!) o labirinto infinito, único e “irrepetível”, que compõe a alma humana. O “eu” que se prolonga para dentro de cada um é do tamanho do universo. Talvez maior.

As palavras com as quais nos comunicamos, no fim, tem de expressar algo que pode ser comum a todos nós. Logo nós que somos tão diferentes. A parte de nós mesmos que queríamos contar, na conversa, tem de ser esvaziada ao ponto de, abstraídas nossas singularidades, caber numa palavra, numa ideia comungada. Torna-se conceito, geral e compreensível. Mas daí perdeu o significado vivo.

Por exemplo, falo “pai”, trazendo um conjunto de experiências afetivas muito presentes, como pai e como filho, e, você, que eventualmente não conheceu o seu e não tem filhos, entende a partir de ausências. Falamos de uma ideia geral de “pai” que diz pouco ou nada. Não nos comunicamos.

O conceito nasce da igualação do não-igual, ensina Nietzsche. Tem de ser compreendido por todo mundo e, por isso, está condenado a ser vazio de conteúdo, experiências e sentimentos pessoais.

Pode estar aí a resposta para nossa dificuldade de se comunicar. Todos falam e ninguém participa do outro. Comunicam-se vazios. Só a nossa agressividade, no fim, tem sido transmitida e muito bem compreendida.