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China medieval - Dinastias Sui e Tang: reunificação e esplendor do império

Túlio Vilela

China medieval - Dinastias Sui e Tang: reunificação e esplendor do império chinês

A China atual é um país continental marcado pela diversidade cultural, étnica e linguística. Um exemplo disso é chamarmos de língua chinesa o que, na verdade, é o mandarim, um dos vários dialetos falados no país e cujo ensino é obrigatório em todas as suas províncias.

Em Hong-kong, por exemplo, ex-possessão britânica, recentemente reintegrada à República Popular da China, a língua falada pelos habitantes é o cantonês, que é incompreensível para chineses de outras regiões.

O turista estrangeiro que visitar os rincões da China encontrará diversas minorias étnicas. Atualmente, o governo chinês reconhece a existência de pouco mais de cinquenta grupos. Entre eles, podemos destacar as etnias hui e cazaque.

A minoria hui, por exemplo, é de religião muçulmana, que proíbe o consumo da carne de porco, a principal iguaria da cozinha chinesa. Ela jamais conseguiu se integrar inteiramente ao resto da população e costuma estar envolvida em revoltas separatistas. Por sua vez, o grupo cazaque, compartilha mais laços culturais com os turcos do que com os han, a etnia dominante no país. É encontrado em partes da China e também na Rússia, Mongólia, Uzbequistão e Cazaquistão (onde é maioria).

Por tudo isso, podemos concluir que não é fácil para um governo (não importa qual seja o regime) manter a unidade política em um território tão vasto quanto o da China. Nem hoje nem no passado mais distante. Por outro lado, podemos perceber que tal unidade foi criada e mantida muitas vezes com o uso da força bruta. E como veremos, na história chinesa, tal unidade já foi destruída e reconstruída algumas vezes.

Ameaças à unidade política chinesa

Em 221 a.C., com a dinastia Qin, surgia, pela primeira vez, um Estado unificado chinês. A dinastia seguinte, os Han, que governou a China de 206 a.C. ao ano 220 da nossa era, consolidou essa unificação. Tal unidade política não resistiu e o país se dividiu em três reinos independentes: Wei (no Norte), Shu (no Oeste) e Wu (no Leste).

No ano 552, essa China dividida estava prestes a ser invadida pelos turcos, mas isto não aconteceu, pois uma divisão política também ocorreu entre eles, dando início, mais tarde, no ano 581, a uma guerra que opôs o Turquestão do oeste e o Turquestão do leste.

Este conflito entre os turcos foi encorajado pelos chineses pois afastava deles a possibilidade de uma invasão. Livres deste perigo, os três reinos chineses começaram a lutar entre si. Cada um era controlado por uma elite guerreira e proprietária de terras, semelhante aos senhores feudais da Europa medieval. Após muitas batalhas, finalmente, no ano 589, um desses nobres, cujo nome era Wendi, saiu vitorioso e reunificou a China, dando início à dinastia Sui (589-618).

Dinastia Sui

Wendi, o primeiro imperador Sui, encontrando um país arrasado pela guerra ordenou o corte de gastos com "mordomias", que beneficiavam apenas os membros da nobreza, e tentou melhorar as condições de vida dos camponeses, que eram paupérrimos.

Tais medidas não agradaram certos nobres que logo tramaram e assassinaram o primeiro imperador Sui. Em seguida, substituíram-no por seu filho, Yangdi, que diferente do pai, preferia gastar a economizar.

Assim, o segundo imperador Sui aumentou os gastos com "mordomias" e obras "faraônicas" beneficiando a nobreza que o havia colocado no trono. E quem pagou a conta, desse aumento nos gastos, foram os camponeses que passaram a ser ainda mais explorados.

O Grande Canal

A obra mais importante construída durante o governo do segundo imperador Sui foi o Grande Canal, que ligava os dois principais rios da China. Ela facilitou o transporte do imposto pago em arroz até as duas capitais do país na época, na bacia do rio Amarelo: Chang'an, a oeste, e Luoyang, a leste.

Esse arroz era estocado em armazéns públicos, cujo objetivo era garantir uma reserva em períodos de escassez e também para evitar o aumento exagerado dos preços, a famosa inflação, conhecida até os dias de hoje.

Apesar da importância econômica do Grande Canal, a sua construção significou grandes sacrifícios para o povo chinês: milhares de camponeses foram convocados para trabalhar na obra e vários deles morreram enquanto realizavam a tarefa. Não bastasse isso, cada homem convocado representou braços a menos para trabalhar nos campos. Consequentemente houve queda na produção agrícola, o que significava menos comida no país.

Invasões à Coreia

O imperador também pretendia que o Grande Canal fosse um instrumento para sua política expansionista e a vizinha Coreia foi um dos primeiros alvos. Na época, ela estava dividida em três reinos independentes e o imperador chinês tentou quatro vezes conquistar um deles, chamado Goguryeo.

Na primeira vez, ele reuniu os membros da nobreza guerreira e os enviou à Coreia numa tentativa malsucedida de invadir e dominar o reino de Goguryeo. As forças chinesas sofreram derrotas em terra e no mar. Os coreanos ofereceram forte resistência enquanto defendiam as muradas de suas cidades. E fora das muradas, os soldados chineses também eram derrotados por dois inimigos: a fome e o frio.

Uma das razões para a vitória coreana foi a sua superioridade na engenharia naval: os seus navios eram encouraçados de metal, uma novidade na época, e conseguiram repelir a marinha chinesa. As outras três tentativas de conquistar o reino coreano também fracassaram.

O exército chinês foi arrasado na série de guerras travadas contra o reino coreano. Estima-se que as baixas chinesas superaram a marca de dois milhões. Das 305 mil tropas enviadas para lutar na Coreia, apenas duas mil e setecentas retornaram. O alto custo dessas derrotas militares, tanto em dinheiro quanto em vidas humanas, contribuiu para o fim da dinastia Sui.

O imperador se tornou cada vez mais impopular e, no ano de 618, acabou sendo assassinado por seus próprios ministros. Outros fatores que contribuíram para a sua queda foram as invasões de nômades turcos no território chinês e os excessivos gastos com luxos no palácio - à custa dos impostos pagos pelos mais pobres.

O início da Dinastia Tang

Pouco antes do assassinato de Yangdi, numa das capitais do império, Daxing, que se localizava no oeste, um general rebelde chamado Li Yuan, proclamou imperador um dos netos do monarca. Esse general também "homenageou" Yangdi concedendo-lhe o título de "imperador aposentado". Tais medidas só foram reconhecidas nos territórios controlados por ele.

Antes de se rebelar, Li Yuan governava uma província e era leal ao imperador. Um de seus filhos, o segundo, Li Shimin (também se escreve Li Shih-Min), foi quem encorajou o pai a rebelar-se. Quando as notícias sobre a morte de Yangdi chegaram Li Yuan depôs o neto do imperador e colocou a si mesmo no trono, dando início à dinastia Tang (618-907).

Dentre todos os filhos do primeiro imperador Tang, Li Shimin era o mais ambicioso e o que mais demonstrava talento para a política. O irmão mais velho, Li Jiancheng, sentindo-se preterido (que por ser o primogênito, considerava-se o herdeiro do trono por direito), uniu-se a outro irmão, Li Yuanji, o quarto filho de Li Yuan, para conspirar contra o irmão. A conspiração fracassou e ambos acabaram mortos numa emboscada preparada pelo irmão que pretendiam eliminar. Li Shimin tomou como esposa a viúva do irmão mais novo.

No ano 626, o primeiro imperador Tang abdicou do trono em favor de Li Shimin que, ao assumi-lo, adotou um novo nome: Taizong (também se escreve Tai-Zung), que significa "segundo imperador de uma dinastia". Portanto, Tang Taizong significa nada menos que "segundo imperador da dinastia Tang".

Tang Taizong, imperador mestiço

O segundo imperador Tang era de origem chinesa, por parte do pai, e turca, por parte da mãe. Esse fator contribuiu para que a dinastia Tang fosse caracterizada pela mescla de elementos das duas culturas e fosse mais aberta para inovações, rompendo com algumas das antigas tradições chinesas.

Taizong incorporou várias tropas turcas ao exército chinês, nomeando oficiais turcos e utilizou esse exército contra os próprios reinos turcos.O império dos Tang era multicultural: além de turcos e chineses, também abrigava comunidades de origens indiana, persa e árabe, entre outras.

Reforma agrária e concursos públicos

Durante o reinado de Taizong, o governo tomou medidas que contribuíram bastante para o desenvolvimento da China. Uma delas foi a reforma agrária: o imperador desapropriou as terras que pertenciam aos seus inimigos (era uma forma de evitar que os nobres se rebelassem contra o imperador) e as dividiu entre os camponeses que nela trabalhavam (conquistando, assim, apoio popular).

Para administrar o país, o imperador precisava de funcionários públicos qualificados. Então ele instituiu concursos públicos, nos quais os candidatos que apresentassem melhor desempenho nas provas eram selecionados. O critério de seleção baseava-se apenas no desempenho do candidato na prova, independente de sua origem social. Por isso, se diz que a China do período era uma meritocracia, ou seja, um regime em que as pessoas conquistam cargos com base no mérito e não por "apadrinhamento".

A imperatriz Wu Hou

A política de Taizong foi continuada por seus sucessores, dentre os quais, Wu Hou, a única mulher a ser reconhecida oficialmente como imperatriz da China, que havia sido uma das concubinas de Li Shimin.

Quando um imperador chinês morria, as mulheres, que faziam parte do harém, eram obrigadas a viver reclusas. Muitas delas eram enviadas para algum convento budista, geralmente próximo ao túmulo do imperador, onde tinham as suas cabeças raspadas e passavam o tempo rezando pela alma do morto para que ele fosse feliz em sua próxima reencarnação.

Wu Hou escapou desse destino porque seus atributos teriam impressionado o filho de Taizong, o imperador Gaozong. Ela governou ao lado de Gaozong de 670 a 683 e, sozinha, de 690 a 705, quando morreu. O seu sucessor foi o seu filho, Zhongzong.

Fase de prosperidade

Durante a dinastia Tang, a China conheceu uma fase de grande prosperidade e progresso técnico e material. Entre as inovações que marcaram o período está o aparecimento do primeiro relógio mecânico, no ano 732, inventado por um monge budista chinês.

Outras invenções que marcaram o período foram a bússola e a técnica de imprimir livros. Enquanto na Europa, nos mosteiros católicos, os chamados monges copistas tinham que transcrever manualmente livros antigos para se obter novas cópias, na China já era possível imprimir vários exemplares de um mesmo livro.

Essa mesma técnica de impressão permitiu que as provas para os concursos públicos chineses da época fossem impressas. Durante a dinastia Tang, a China teve suas fronteiras ampliadas e o comércio se expandiu. O período também foi marcado pela fundação de várias escolas de medicina, não apenas na capital, Chang'an, mas também nas províncias.

Uma das consequências do desenvolvimento econômico foi o extraordinário aumento da população, favorecido pela melhoria nas condições de vida da maioria dos habitantes. Segundo o primeiro censo, realizado em 754, a população da China já havia ultrapassado a faixa dos 50 milhões, um número excepcional para a época.

No entanto, essa prosperidade não durou para sempre. O final da dinastia Tang foi conturbado, marcado por uma série de crises. Durante o reinado de Taizong, os camponeses pagavam impostos em espécie (entregando parte do arroz que plantavam) ou na forma de trabalho; mas, a partir de 780, o governo passou a exigir que os impostos fossem pagos em dinheiro. Tal exigência era impossível de ser cumprida pela maioria dos camponeses e, por isso, muitos deles perderam suas terras.

Perseguição aos budistas

Outro problema que surgiu foi a escassez de cobre e outros metais para cunhar moedas. Naquela época, o dinheiro era todo na forma de metal. Falta de metal era igual a falta de dinheiro. O governo colocou a culpa nos templos budistas que usavam bronze e outros metais para construir seus sinos e estátuas.

Em meados do século 9, ele começou a confiscar todos os objetos de metal dos templos budistas para derretê-los e cunhar novas moedas. Outra medida foi baixar um decreto que acusava o budismo de ser uma religião estrangeira (surgiu onde hoje é o Nepal), que estava enfraquecendo o país.

O governo se apropriou das terras onde estavam vários mosteiros budistas. Alguns foram destruídos enquanto outros foram transformados em edifícios públicos. Devido à extensão da China, essas medidas antibudistas só conseguiram ser cumpridas em algumas regiões. Nas outras, eles continuaram praticando sua religião nos templos e mosteiros.

A decadência da dinastia Tang

Outros problemas assolaram o país: uma grande seca e uma praga de gafanhotos trouxeram a fome e provocaram uma série de revoltas camponesas. Uma delas ocorreu no século 9, quando vários camponeses famintos saquearam as duas capitais, Chang'an e Luoyang. Apesar de derrotada, essa rebelião enfraqueceu o exército chinês e contribuiu para o declínio da dinastia Tang.

A partir do ano 902, teve início uma longa guerra civil que levou ao esfacelamento do país em vários reinos menores. Em 906, o general Zhu Wen depôs o último imperador Tang e deu início ao período das cinco dinastias, 907-960, também conhecido como período dos dez reinos.

A China voltou a ser reunificada somente a partir do ano 960. O responsável por isto foi o general Zhao Kuangyin que deu início a uma nova dinastia - a dos Song (960-1279). Os Song conseguiram reunificar a maior parte da China, exceto a parte norte que estava sendo governada por um povo mongol. Durante esta dinastia, a China se tornará pioneira no uso do papel-moeda e no da pólvora. Mas essa já é uma outra história.

Túlio Vilela formado em história pela USP, é professor da rede pública do Estado de São Paulo e um dos autores de "Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula" (Editora Contexto).

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