Filho de diarista e vendedor é aprovado em medicina na UFRGS

Bruna Souza Cruz

Do UOL, em São Paulo

  • Arquivo pessoal

    Samuel estudou em escolas públicas

    Samuel estudou em escolas públicas

Foi com muita emoção que os pais de Samuel Prado Ribeiro, 18, receberam a notícia de que ele havia sido aprovado em medicina na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), por meio do Sisu (Sistema de Seleção Unificada).

Janete e Jorge Ribeiro não conseguiram conter as lágrimas de orgulho do filho. Ainda mais por ele ser o primeiro da família a entrar na universidade pública. Sua mãe, diarista, só conseguiu estudar até a 5ª série do ensino fundamental. Já o pai, vendedor gráfico, parou de estudar no ensino médio.

"Quando contei para eles o resultado positivo, foi uma festa. Eles se emocionaram muito", lembra Samuel, que estudou em escolas públicas. "Minha família sempre me estimulou a estudar. Minha mãe sempre dizia que eu e meu irmão [de 17 anos e que acabou de terminar o ensino médio] tínhamos que continuar estudando para não passar pelo que ela passou."

O resultado do Sisu foi divulgado ontem (18) e a pontuação do estudante foi de 723,60. O jovem ainda aguarda confiante as listas de aprovados da Unesp (Universidade Estadual Paulista), Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e Famema (Faculdade de Medicina de Marília).

"Só de ter passado na UFRGS já é muito gratificante. Ainda mais por ser um curso tão concorrido, um dos mais difíceis. Ter essa sensação de aprovação, de superação dos seus limites, é maravilhoso. Estou muito feliz", conta.

Arquivo pessoal
Resultado do Sisu
Segredos do aprovado

Até a aprovação foram dois anos de preparação no cursinho popular Cuja-Unifesp*, sendo o primeiro deles cursado junto ao último ano do ensino médio na Etec (Escola Técnica Estadual) Abdias do Nascimento, no bairro Paraisópolis, zona sul de São Paulo.

"Não foi fácil conciliar o cursinho com a escola. Ainda mais na Etec que tem como foco o preparo para o mercado de trabalho. Não que o ensino tenha sido ruim, mas nem todos os professores focavam nos vestibulares", diz o jovem.

Diante da falta de tempo para se dedicar mais aos estudos, Samuel não conseguiu nenhuma aprovação após o primeiro ano de cursinho. Decidiu então rever os erros e acertos do período e tentou uma nova tática de preparação.

"Em 2014 eu fui reprovado pelas exatas. Então decidi que iria focar meus estudos nelas. Fazia um curso especial só para matemática de manhã e a noite eu ia para o cursinho. Mas claro que não deixava as outras matérias de lado", explica. "Ia para a biblioteca às 13h e ficava estudando todos os dias até o começo das aulas. Quando eu voltava para casa, procurava descansar bem e no dia seguinte estudava toda a matéria do dia anterior", acrescenta.

Outra estratégia usada pelo estudante foi dormir. Sim, dormir! Ele percebeu que não descansava o suficiente durante o primeiro ano de estudos. "Achava que estudar exaustivamente iria ajudar a passar. No final, não consegui. Por isso mudei no segundo ano."

Fazer simulados e provas anteriores também foram táticas importantes usadas por Samuel. Ao longo da semana o jovem ainda tinha que bater uma meta de questões resolvidas do Enem. "Eu fiz os últimos oito anos [da prova] da Unifesp", afirma orgulhoso.

Para se manter na UFRGS, em Porto Alegre, Samuel tentará concorrer aos auxílios oferecidos pela universidade. Enquanto a ajuda não vem, sua família fará uma "vaquinha" entre os parentes para que ele não perca a chance de cursar medicina.

*O Cuja é um projeto de ação social vinculado à Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) criado há quase 15 anos por graduandos e pós-graduandos da universidade. 

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