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A escola pública me ensinou a pensar, diz juiz de ação sobre ocupações

O desembargador Coimbra Schimdt em seu gabinete no TJ-SP - Lucas Lima/UOL
O desembargador Coimbra Schimdt em seu gabinete no TJ-SP Imagem: Lucas Lima/UOL

Marcelle Souza

Do UOL, em São Paulo

13/12/2015 06h00

Enquanto estudantes e representantes do Governo de São Paulo discutiam a reorganização da rede e a ocupação das escolas, o desembargador Coimbra Schimidt acompanhava atento cada fala e cada movimento de protesto na audiência realizada no dia 19 de novembro. Ele é o relator da ação que, apesar do anúncio de suspensão da reforma da rede estadual, ainda tramita no Tribunal de Justiça de São Paulo e trata de um pedido de reintegração de posse das escolas ocupadas na capital.

Dois dias antes da audiência, o desembargador havia surpreendido os leitores atentos do despacho ao citar a sua própria experiência no movimento estudantil em 1968, quando era aluno do 3º ano do Ginásio Estadual Vocacional Osvaldo Aranha, em São Paulo.

"Tratam-se, no caso, de duas greves durante as quais nós, alunos, permanecemos na escola, com substituição da grade curricular por rica e instigante discussão, coordenada pelos professores da área de estudos sociais, centrada na realidade do país e no particular momento por nós vivido", escreveu Schimidt em um trecho da decisão em que determinou a tentativa de conciliação entre governo e estudantes em São Paulo.

Ex-aluno da rede, o desembargador lamentou, em entrevista ao UOL, o que chamou de queda do prestígio e da qualidade da escola pública.

"As escolas públicas eram disputadíssimas, havia poucas escolas particulares de qualidade, mas houve uma derrocada do ensino público", disse. "O ensino público é fundamental, é dever do Estado dar educação. Na prática, hoje, terceirizou [a educação], como fez com a saúde e uma série de coisas. O Estado renunciou à sua competência, talvez a mais importante."

Sobre a sua participação em protestos estudantis, Schimidt conta que ocorreram entre 1966 e 1968 e que as principal demanda era melhoria no ensino público. "Eu lembro que houve um movimento dos professores, a gente tinha muito respeito pelos professores, o ensino público era um ensino digno, muitos colegas que estão aqui são oriundos do ensino público", disse o desembargador, que destaca que na sua época as escolas não foram ocupadas.

"Tivemos duas greves, uma foi em apoio aos professores, que entraram em greve em defesa do ensino público. A segunda foi uma greve de estudantes, aí já teve o dedinho da UPES (União Paulista de Estudantes Secundaristas), que voltou agora. Fizemos a nossa greve. Eu lembro que a molecadinha foi fazer uma passeata pelas ruas do Brooklin [bairro da zona sul de São Paulo]", lembra.

"Aqueles três anos, associados a uma base muito boa que eu tive no colégio de padres no primário, me ensinaram a pensar. E com todo o ensino tradicional que eu enfrentei depois, eu nunca fui um conformista. Eu aprendi a pensar, aprendi a ser gente. Decorar eu não consigo. Mas eu acho que eu aprendi algo essencial do ensino que é aprender a lógica das coisas, não ficar recitando fórmulas pré-concebidas. Esse ensino me transformou no que eu sou hoje", afirma o desembargador.

Protestos na USP

Na Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo), Schimidt também participou do movimento estudantil, que abandou logo nos primeiros anos no Largo São Francisco. "Eu quis forçar um movimento de rebeldia dos calouros contra abusos no trote. No final, estava toda a faculdade me cercando e eu sozinho. Não aconteceu nada, mas eu fui humilhado. Eu disse: 'Não quero mais saber', foi quando abandonei toda e qualquer militância ativa".

"Tinha greve na faculdade, eu chegava 7 da manhã. O primeiro do centro acadêmico chegava às 9h30, 10h. Legal fazer greve assim", ironiza. "A maioria do pessoal era gente completamente alienada, desinteressada, isso no Largo São Francisco", diz.

Para ele, essas experiências não interferem hoje nas suas decisões como desembargador no Tribunal de Justiça de São Paulo. "No dia em que eu tomei posse como juiz, o meu compromisso deixou de ser com a ideologia e passou a ser com a Constituição".