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1ª prova do Enem sob Bolsonaro foge de temas polêmicos

Próxima prova do Enem será dia 10 - Divulgação
Próxima prova do Enem será dia 10 Imagem: Divulgação

Jéssica Maes

Colaboração para o UOL

04/11/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Cerca de 3,9 milhões de pessoas fizeram a 1ª prova do Enem
  • É a primeira vez, desde 2009, que exame não aborda a ditadura militar
  • Para professores, o exame sob o governo Bolsonaro mudou pouco

O primeiro dia de provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2019 teve dificuldade média e chamou atenção pela neutralidade ideológica das questões apresentadas nas provas Linguagens e suas Tecnologias e Ciências Humanas e suas Tecnologias. A prova de redação, cujo tema foi "Democratização do acesso ao cinema no Brasil", foi considerada pouco complexa para desenvolvimento da tese dissertativa-argumentativa e também fugiu de polêmicas.

Essa é análise feita pelos especialistas ouvidos pelo UOL. Para eles, apesar de ter abordado temas diversos, as perguntas passaram ao largo de assuntos que poderiam ser mais polêmicos, como direitos da população LGBT ou racismo.

Esse ano, segundo o balanço do primeiro dia de provas, 1,2 milhão dos 5,1 milhões de inscritos - ou seja, 23% dos candidatos - não compareceram, índice similar ao observado no primeiro dia de prova do ano passado.

A edição foi marcada ainda pelo vazamento de uma foto da prova de redação na internet, quando os estudantes ainda faziam o exame. Embora tenha sido amplamente divulgado que o uso de aparelho celular não seria tolerado, um candidato ou fiscal fotografou a prova e publicou. Depois de dizer que o vazamento não prejudicou o andamento da prova, o ministro Abraham Weintraub afirmou que vai "escangalhar ao máximo" a vida do responsável pelo ato.

Dificuldade e neutralidade

O nível de dificuldade, o modelo de prova e a maior parte do conteúdo abordado não foi diferente de outras edições, com equilíbrio entre questões fáceis e difíceis. "A única diferença é que o Enem fugiu de temas polêmicos e questões que pudessem dar margem a discussões partidárias e ideológicas. Ele manteve uma neutralidade nas questões", diz o Antunes Rafael dos Santos, diretor do colégio Oficina do Estudante.

"O Enem é uma prova muito tradicional quanto a cobrança de assuntos. Neste ano, os comandos dentro de cada alternativa foram bastante diretos, o que até ajudou a resolução do aluno", opina o coordenador do Grupo Etapa, Marcelo Dias.

Na análise de Dias, a prova que se manteve ideologicamente imparcial. "Dentro da Geografia e da História foram abordados assuntos muito clássicos. A prova de Filosofia exigiu basicamente interpretação de texto, com uma ou outra exceção muito específica. Sociologia também trouxe temas que uma leitura atenta permitiria a resolução da questão. E inglês teve temas bastante clássicos na abordagem".

A prova trouxe várias questões de defesa aos direitos humanos, tocando em temas como refugiados, bullying, combate à violência contra mulheres e estatuto do idoso. "São assuntos que dentro da prova de linguagens podem dar margem para defesa de minorias, mas, ainda assim, são minorias socialmente reconhecidas e aceitas, que não dão margem para discordâncias", avalia Santos.

Ciências Humanas e suas Tecnologias

As questões de História, por exemplo, focaram em períodos mais antigos, como a Idade Média e o Brasil colônia, enquanto, em anos anteriores, temas relacionados à história do século 20 tinham uma presença maior. "A ausência de Vargas e Ditadura Civil Militar pode ser um sinal de evitar temas potencialmente constrangedores", opina o professor de história do Oficina do Estudante Victor Rysovas.

O levantamento feito pela Folha com base em todas as edições do exame desde 2009, quando ele adquiriu o atual formato, mostra que essa é a primeira em dez anos que o Enem não trouxe nenhuma questão relativa à ditadura militar (1964-1985) nas provas de ciências humanas e linguagens.

Questões sobre a Era Vargas, explica o professor, poderiam esbarrar em temas como censura, manipulação por meio da propaganda e controle dos meios de comunicação. Já questões sobre a Ditadura Militar poderiam contrariar posicionamentos revisionistas, que negam o fato do Brasil ter vivido uma ditadura entre 1964 e 1985. "Além disso, a abordagem das questões sobre Vargas também trazem um viés de valorização da legislação trabalhista, o que significaria ir no sentido contrário a determinadas pautas da atualidade", aponta.

A análise da professora de História do curso Positivo, de Curitiba, Adriana Ralejo, vai na mesma direção. "A minha hipótese é de que a seleção das questões buscou um viés que não fosse gerar polêmicas. Esse enfoque em temporalidades mais antigas evita que seja tocado em temas políticos polêmicos", analisa.

O gerente de inteligência educacional do colégio Poliedro, Fernando da Espiritu Santo, elogiou o fato de a prova trazer temas muito atuais, como a discussão sobre alterações no conselho de segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), sem deixar de lado autores clássicos, como Hannah Arendt e Maquiavel. "De uma maneira geral, foi uma prova que não enveredou por nenhuma temática em especial, nem contemplando situações políticas com pensamentos de esquerda ou direita. Ela inovou a sua abordagem tentando aproximar a proposta das questões com a realidade dos estudantes", explica.

Para a professora de Sociologia e Filosofia da plataforma Descomplica, Lara Rocha, a prova com certeza foi mais ideologicamente neutra, quando comparada com edições anteriores. "A prova tem questões de caráter social, abordando intolerância religiosa e desigualdades econômicas no mundo, por exemplo. Mas com uma abordagem mais sutil em relação a anos anteriores", diz.

A professora Vera Lucia da Costa Antunes, coordenadora pedagógica do curso Objetivo, discorda e afirma que não se pode esperar que o Enem traga os mesmos temas todos os anos. "Não é obrigatório a cair Vargas ou Ditadura Militar sempre. A história é imensa", afirma. "A prova está dentro do esperado. No Enem não tem repetição de questão [de outras edições] e não tem que ter sempre os mesmos assuntos, mas, sim, o contrário disso".

Costa Antunes acredita que a prova deixou alunos e professores contentes e que não deve suscitar muitas discussões. "De modo geral, ela pediu coisas que o aluno estudou. E o professor fica feliz porque viu o que ele ensinou sendo cobrado pelo Enem. O professor e o aluno se completam nessa prova", afirma.

Linguagens e suas Tecnologias

O primeiro dia de prova do Enem, tradicionalmente, é uma bastante textual e neste ano foi ainda mais. "A prova de português teve muita exigência de leitura. Houve um número maior de questões de entendimento de texto, com pouco espaço para literatura e artes e pouca gramática, se comparado a anos anteriores", analisa o diretor do curso Anglo, Daniel Perry.

Além do grande peso da interpretação de texto, a coordenadora pedagógica do Objetivo lembra que a prova seguiu a tradição de exigir que o candidato conhecesse funções da linguagem e trouxe textos críticos. "Foi uma prova cidadã, ética, respeitando direitos humanos em português, história e geografia. Uma prova muito boa", opina Costa Antunes.

Para o professor de geografia e atualidades do Descomplica, Cláudio Hansen, chamou atenção o uso de textos com linguagem mais rebuscada do que normalmente se via. "O aluno com bom vocabulário teve vantagem e o hábito de leitura foi muito premiado, já que algumas questões tinham um vocabulário que não era tão comum, tão simples", acredita.

As questões de línguas estrangeiras - inglês ou espanhol, dependendo da escolha do candidato - trouxeram uma grande variedade de estilos de texto e não tinham níveis de dificuldade muito alta. Foram escolhidos poemas, música ("In This Life", da Madonna), fábula, charge, carta e textos noticiosos.

Redação

O tema da redação do Enem "Democratização do cinema no Brasil" surpreendeu os professores. "Em um aspecto mais amplo, a proposta abordou a falta de acesso - democratização - à Cultura no Brasil e propôs, como foco, o cinema. Considerando a amplitude do tema, diversas abordagens e problematizações são possíveis nesta proposta", avalia Marcelo Maluf, professor de redação do colégio Oficina do Estudante.

A prova contou com quatro textos motivadores. O artigo "O que é cinema", do teórico Jean-Claude Bernardet, apresenta uma abordagem histórica que remonta às origens do cinema no final do século 19. O texto "O filme e a representação do real", da socióloga Cristiana Freitas Gutfreind, , baseia-se na definição de cinema do filósofo francês Edgar Morin - para ele, o cinema funciona como forma de registro e ressignificação da experiência, de modo que o espectador se identifica e se transforma a partir do que vê na tela de cinema.

O terceiro texto era um infográfico do jornal Meio e Mensagem sobre o percentual de brasileiros que frequentam as salas de cinema. Por fim, foi apresentado um trecho do texto "Cinema perto de você", da Ancine, a agência do governo brasileiro para o audiovisual. O texto fala sobre como o Brasil é apenas o 60º país na relação de habitantes por sala de cinema, com pouco mais de 2 mil salas, uma queda em relação à década de 1970.

Tendo em vista que a redação Enem cobra propostas de intervenção para o problema, o candidato teria, no texto 4, algumas informações que poderiam ser utilizadas como "causa" da falta de "democratização do acesso ao cinema no Brasil" e, portanto, das propostas possíveis.

Neste sentido, poderia mobilizar os três setores - instâncias governamentais, instâncias privadas e instâncias civis e sociais - e propor mudanças em relação à falta de investimento na infraestrutura do setor, à baixa capitalização de empresas exibidoras, à descentralização das salas de cinema, aos custos de ir ao cinema e ao local onde se encontram as salas, por exemplo.

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