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Filho de plantadores de arroz, deficiente visual é o primeiro da família a ter ensino superior e já pensa em nova graduação

Arquivo/pólo de Cachoeira do Sul (RS)
Deividi Prussiano de Freitas, o primeiro deficiente visual a se formar pela UAB Imagem: Arquivo/pólo de Cachoeira do Sul (RS)

Camila Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

2012-06-22T06:00:00

22/06/2012 06h00

“Minha família é do meio rural e meu pai sempre trabalhou em plantação de arroz. Tenho quatro irmãos e a maioria deles seguiu o mesmo caminho. Como sempre soube que não podia trabalhar na lavoura, fui estudar”, conta o deficiente visual Deividi Prussiano de Freitas, 28, que se tornou o primeiro da família a concluir o ensino superior no curso de tecnologia em gestão pública a distância, oferecido pelo IF-SC (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Santa Catarina) no polo de Cachoeira do Sul (RS), a 290 km de Porto Alegre.

Sete meses após a formatura, Deividi faz planos para ingressar em uma nova graduação. Atualmente, é vestibulando da licenciatura em letras-espanhol, oferecida pelo IF-SC, no mesmo polo. Os estudos, em sua opinião, são uma forma de ampliar as chances de trabalho.

“Chega um período na vida em que você tem de fazer uma opção: ou trabalha ou estuda. No meio rural, os empregados não têm como pagar transporte, roupas e alimentação para estudar na cidade. Então, geralmente o estudo fica para trás. E, quando a família é grande, sempre se aposta em um”, analisa.

Dos quatro irmãos de Deividi, com idades entre 23 e 30 anos, só o mais velho completou o ensino médio. Os demais concluíram o ensino fundamental e pararam de estudar. Seu pai e sua mãe, hoje com 57 e 50 anos, terminaram apenas os anos iniciais do ensino fundamental.

A família vive em uma fazenda de arroz, na zona rural de Cachoeira do Sul, cidade com 83,8 mil habitantes. Os pais de Deividi e três dos quatro irmãos trabalham na lavoura. O outro é pedreiro.

Primeira professora de braile só aos 14 anos

Segundo o rapaz, a primeira professora de braile chegou a Cachoeira do Sul em 1998, quando ele tinha 14 anos. Só então pôde iniciar seus estudos. “Na sala, éramos cinco ou seis crianças cegas, mas havia também colegas com visão subnormal, que tinham de fazer ampliações e precisavam de lupa”. Após o primeiro ano de braile, começou a fazer o fundamental.

A escola era estadual e ficava na área urbana. Por isso, ele, a mãe e os quatro irmãos se mudaram. O pai ficou na plantação trabalhando. Em 2002, Deividi voltou à zona rural, onde cursou até a 8ª série (atual 9º ano). Para fazer o ensino médio, viajava com a mãe até a cidade, em trajeto que durava uma hora e meia. O rapaz concluiu a educação básica em 2007.

Pioneiro no EAD

Deividi foi o primeiro cego a se formar pela UAB (Universidade Aberta do Brasil), programa do governo federal de EAD (Ensino a Distância). “Em 2008, só havia dois cursos a distância no IF-SC: gestão pública e educação no campo. Como não queria fazer algo relacionado ao campo, escolhi a outra opção”. Um ano antes, seu sonho era cursar direito, mas faltaram pontos para ingressar na carreira, e Deividi acabou mudando de área.

As aulas da graduação começaram em 2009 e ele logo sentiu as dificuldades. Devido à falta de acesso à internet onde mora, Deividi precisava se deslocar ao polo três vezes por semana, sempre com auxílio da mãe. Lá, ele assistia às aulas presenciais e fazia as atividades com a tutora Maristela Almansa. “Estudávamos uma unidade curricular por dia. Fazíamos a leitura do capítulo do livro, de textos do ambiente virtual e, quando necessário, repassávamos a videoaula para responder aos questionários. Deividi possui uma memória extraordinária”, lembra Maristela.

Outro obstáculo era a falta de materiais apropriados para deficientes visuais. “Não tínhamos livros em braile e, só no meio do curso, conseguimos emprestado um notebook com software de leitura de caracteres, que proporcionou mais autonomia”, conta a tutora.

Ainda assim, faltava adaptar ilustrações e materiais gráficos: “Com uma caneta, usava o lado inverso da folha da apostila para salientar as linhas dos gráficos, dos mapas e das gravuras. Colava cordão sobre as linhas, utilizava pontos e traços para diferenciar os trajetos. Enfim, fazia o que fosse possível para que ele entendesse a proposta usando o tato”, explica. A instituição chegou a gravar alguns dos livros em áudio e a fazer provas em braile. O estudante, então, avaliava os materiais e enviava sugestões de melhoria.

Para Deividi, o ritmo do curso foi intenso. “A quantidade de conteúdo é bem grande. É praticamente uma disciplina a cada um mês e meio. Talvez seja mais difícil que o curso presencial”, estima.

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