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Por que suposta interferência pode atrapalhar credibilidade do Enem e Inep

Pillar Pedreira/Agência Senado
Imagem: Pillar Pedreira/Agência Senado

Ana Paula Bimbati

Do UOL, em São Paulo

19/11/2021 04h00

Às vésperas do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), relatos de servidores do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) sobre supostas interferências na prova passaram a surgir. Para especialistas, a censura de questões pode afetar a credibilidade da prova e do instituto.

"O risco de credibilidade é muito grande. Não no sentido político, mas técnico, porque o Inep, responsável por todo o processo do Enem, é reconhecido internacionalmente", explica Claudia Costin, diretora do Ceipe (Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais) e ex-diretora de educação do Banco Mundial.

Segundo ela, a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), por exemplo, se baseia em avaliações do Inep para fazer suas análises do Pisa, maior avaliação de alunos do mundo.

Reportagem do Fantástico, da TV Globo, apresentou relatos de servidores que afirmaram que o diretor de Avaliação de Educação Básica, Anderson Oliveira, pediu a remoção de mais de 20 questões da primeira versão da prova deste ano.

Já o jornal O Estado de S. Paulo divulgou reportagem que afirma que o Inep passou a imprimir a prova previamente neste ano com a intenção de que mais pessoas tivessem acesso ao exame antes da aplicação.

Além disso, servidores disseram que 24 questões foram retiradas após uma "leitura crítica", sob o argumento de serem "sensíveis". No entanto, 13 delas foram incluídas novamente.

Não foram revelados os temas ou questões que teriam sido excluídas. Parlamentares ligados à educação aguardam a aplicação da prova, que acontece nos próximos dias 21 e 28, para aprofundarem as investigações.

Na segunda-feira (15), ao comentar o pedido de exoneração de mais de 30 servidores do Inep, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) disse que agora o exame começa a ter a "cara do governo". Depois, voltou atrás e disse que não teve acesso ao Enem.

Dois dias depois, o ministro da Educação, Milton Ribeiro, disse que a prova terá a "cara do governo no sentido de competência, honestidade, seriedade".

A coordenadora-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Andressa Pellanda, avalia uma suposta interferência como "reflexo de uma agenda ideológica". A consequência, segundo ela, é um impacto "transversal" na educação.

"Coloca em xeque a garantia da educação como direito, com fins de educar para o pleno desenvolvimento, para a cidadania e para o trabalho. Educação não pode ser aparelhada, porque ela deixa de ser educação", diz Andressa.

Tanto o ministro como Bolsonaro, já demonstraram interesse em ter acesso prévio ao Enem para evitar aquilo que definem como "questões de cunho ideológico". Uma das questões criticada por eles tratava da diferença salarial entre os jogadores Neymar e Marta.

Quando Bolsonaro fala que o Enem deve ser sobre aprendizagem, ele não entendeu o que é aprendizagem. Não é apenas decorar datas, mas ter a capacidade de pensamentos sistêmicos, de compreender a realidade de diferentes ângulos, ter um pensamento autônomo. E todas essas habilidades são importantes de se avaliar."
Claudia Costin, diretora do Ceipe

Para Lucas Hoogerbrugge, líder de relações governamentais do movimento Todos pela Educação, os relatos de trocas de questões são "preocupantes" e devem ser apurados rigorosamente. Ele e as demais especialistas ouvidas pelo UOL afirmam que o risco não deve atingir os alunos que farão o Enem deste ano.

"O grande prejuízo é que o Enem deixar de ser um exame da sociedade e que apresenta temáticas da sociedade", afirma Hoogerbrugge.

Questionado na quarta-feira, o presidente do Inep, Danilo Dupas, disse durante audiência no Senado ser "comum" ocorrer uma troca entre as questões durante a montagem do Enem.

"As provas foram montadas pela equipe técnica, seguindo a metodologia que vem sendo adotada, que é a Teoria de Resposta ao Item. A prova possui um conjunto de questões de diversos níveis de dificuldade que são calibradas para garantir um certo nível de prova", afirmou.

Defensoria pede que Inep prove que Enem está seguro

Após as denúncias de supostas interferências, a DPU (Defensoria Pública da União) acionou a Justiça para pedir que o Inep comprove que tomou medidas para garantir que não haja vazamentos e fraudes na prova.

"É direito dos estudantes terem informações que garantam a realização do Enem sem qualquer problema de segurança", disse o defensor João Paulo Dorini.

Além das denúncias, na semana passada, o UOL noticiou que um agente da Polícia Federal foi ao Inep para vistoriar a produção da prova. Dupas garantiu que a visita é um "procedimento esperado".

O ministro da Educação também comentou a situação e disse que o agente teria ido ao local apenas por uma questão de "logística física".

"Se existe um instituição que ajudou a sanear o Brasil em termos de ética, num passado recente, foi a PF. Ela merece toda nossa homenagem e respeito", afirmou Ribeiro.

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