Reflexões - Estatuto da Criança e do Adolescente

Patrícia Cordeiro Sbrogio

Objetivos

1) Ler e interpretar textos de diferentes gêneros, refletindo sobre a questão do trabalho infantil.

2) Conhecer e compreender a função do Estatuto da Criança e do Adolescente.

3) Produzir textos a partir da reflexão realizada.

Ponto de partida

Texto 1

Na escuridão miserável


Eram sete horas da noite quando entrei no carro, ali no Jardim Botânico. Senti que alguém me observava enquanto punha o motor em movimento. Voltei-me e dei com uns olhos grandes e parados como os de um bicho, a me espiar através do vidro da janela junto ao meio-fio. Eram de uma negrinha mirrada, raquítica, um fiapo de gente encostado ao poste como um animalzinho, não teria mais que uns sete anos. Inclinei-me sobre o banco, abaixando o vidro:
- O que foi, minha filha? - perguntei, naturalmente, pensando tratar-se de esmola.
- Nada não senhor - respondeu-me, a medo, um fio de voz infantil.
- O que é que você está me olhando aí?
- Nada não senhor - repetiu. - Tou esperando o ônibus...
- Onde é que você mora?
- Na Praia do Pinto.
- Vou para aquele lado. Quer uma carona?
Ela vacilou, intimidada. Insisti, abrindo a porta:
- Entra aí, que eu te levo.
Acabou entrando, sentou-se na pontinha do banco, e enquanto o carro ganhava velocidade ia olhando duro para a frente, não ousava fazer o menor movimento. Tentei puxar conversa:
- Como é o seu nome?
- Teresa.
- Quantos anos você tem, Teresa?
- Dez.
- E o que estava fazendo ali, tão longe de casa?
- A casa da minha patroa é ali.
- Patroa? Que patroa?
Pela sua resposta, pude entender que trabalhava na casa de uma família no Jardim Botânico: lavava roupa, varria a casa, servia a mesa. Entrava às sete da manhã, saía às oito da noite.
- Hoje saí mais cedo. Foi 'jantarado'.
- Você já jantou?
- Não. Eu almocei.
- Você não almoça todo dia?
- Quando tem comida pra levar de casa eu almoço: mamãe faz um embrulho de comida pra mim.
- E quando não tem?
- Quando não tem, não tem - e ela até parecia sorrir, me olhando pela primeira vez. Na penumbra do carro, suas feições de criança, esquálidas, encardidas de pobreza, podiam ser as de uma velha. Eu não me continha mais de aflição, pensando nos meus filhos bem nutridos - um engasgo na garganta me afogava no que os homens experimentados chamam de sentimentalismo burguês.
- Mas não te dão comida lá? - perguntei, revoltado.
- Quando eu peço eles dão. Mas descontam no ordenado. Mamãe disse pra eu não pedir.
- E quanto é que você ganha?
Diminuí a marcha, assombrado, quase parei o carro! Ela mencionara uma importância ridícula, uma ninharia, não mais que alguns trocados. Meu impulso era voltar, bater na porta da tal mulher e meter-lhe a mão na cara.
- Como é que você foi parar na casa dessa... foi parar nessa casa? - perguntei ainda, enquanto o carro, ao fim de uma rua do Leblon, se aproximava das vielas da Praia do Pinto. Ela disparou a falar:
- Eu estava na feira com mamãe e então a madame pediu para eu carregar as compras. E aí no outro dia pediu a mamãe pra eu trabalhar na casa dela, então mamãe deixou porque mamãe não pode deixar os filhos todos sozinhos e lá em casa é sete meninos fora dois grandes que já são soldados. Pode parar que é aqui moço, obrigado.
Mal detive o carro, ela abriu a porta e saltou, saiu correndo, perdeu-se logo na escuridão miserável da Praia do Pinto.


(SABINO, Fernando. A companheira de viagem. 10ª ed. Rio de Janeiro, Record, 1987. p. 135-7.)

Texto 2

Meninos carvoeiros

Os meninos carvoeiros
Passam a caminho da cidade.
- Eh, carvoero!
E vão tocando os animais com um relho enorme.

Os burros são magrinhos e velhos.
Cada um leva seis sacos de carvão de lenha.
A aniagem é toda remendada.
Os carvões caem.

(Pela boca da noite vem uma velhinha que os recolhe,
dobrando-se com um gemido.)

- Eh, carvoero!

Só mesmo estas crianças raquíticas
Vão bem com estes burrinhos descadeirados.
A madrugada ingênua parece feita para eles...
Pequenina, ingênua miséria!

Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis!

- Eh, carvoero!

Quando voltam, vêm mordendo num pão encarvoado,
Encarapitados nas alimárias,
Apostando corrida,
Dançando, bamboleando nas cangalhas como espantalhos desamparados.

[Petrópolis, 1921]

(BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1993.)

Vocabulário

  • Aniagem: pano grosseiro sem acabamento, de juta ou outra fibra vegetal.
  • Raquítico: pouco desenvolvido, franzino, magrinho.
  • Encarapitado: colocado ou acomodado no alto.
  • Alimária: animal de carga.
  • Cangalha: peça de três paus, unidos em triângulo, que se enfia no pescoço dos animais, normalmente porcos, para não destruírem hortas cultivadas.
  • Relho: chicote de couro torcido.

Estratégias

1) Ler e interpretar os textos 1 e 2, salientando a questão do trabalho infantil.
 

2) Ler o Estatuto da Criança e do Adolescente, focalizando a questão do trabalho infantil e outros temas de interesse da turma.

3) Reler os textos 1 e 2 e refletir sobre a condição das personagens. Se possível, pedir para os alunos trazerem notícias e outros textos sobre trabalho infantil e sobre temas tratados no Estatuto da Criança e do Adolescente.

4) Produzir poemas, músicas, artigos de opinião ou textos de outros gêneros, já estudados pelos alunos, sobre a reflexão realizada. É importante que os alunos apresentem e divulguem os textos produzidos.

Comentário

Quando realizo essa atividade, antes da produção textual, leio para os alunos o livro Os estatutos do homem, de Thiago de Melo. Após a leitura e análise da obra, peço para os alunos produzirem artigos poéticos ilustrados, baseados no estudo realizado em sala. O envolvimento dos alunos nessa atividade é muito grande, os debates riquíssimos e as produções excelentes.

Patrícia Cordeiro Sbrogio
é formada em letras pela Universidade de São Paulo e é professora de língua portuguesa na rede particular de ensino do Estado de São Paulo.



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