História da ciência (1): A contribuição de Aristóteles à ciência

Carlos Roberto de Lana, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

No artigo Ciência - afinal, o que é isto mesmo? respondi à pergunta do título com uma definição simples: "são explicações testadas sobre as coisas e fatos que nos interessam, obtidas a partir da observação e do estudo destas coisas e fatos."

Se a definição de ciência pode ser posta em poucas palavras, a história da ciência é de espetacular grandeza, uma aventura magistral levada a cabo por grandes homens decididos a descobrir o que até então todos desconheciam e compreender o que os homens de sua época tinham como mistérios.

Um passeio completo pela história da ciência nos levaria a tantos lugares, épocas e nomes que a soma dessas paradas reuniria informação demais para as pretensões desta série de artigos. Mas podemos fazer um breve tour por esta história, tentando - em apenas cinco estações - dar uma pequena amostra do longo caminho percorrido pela ciência desde a Antiguidade até o momento em que estas palavras lhes chegam aos olhos através da tecnologia digital, um dos produtos desta mesma ciência da qual falamos.

 

Amigos da sabedoria

Começando então este pequeno passeio pela história da ciência, faremos nossa primeira parada na Grécia antiga, mais exatamente no século 4 a.C., onde encontraremos um médico de Estagira, cidade da Macedônia, que dividia seu tempo entre a prática profissional e a dedicação plena à busca do conhecimento.

Seu nome era Aristóteles. Ele foi discípulo de Platão, que por sua vez foi discípulo de Sócrates. Todos filósofos, palavra que significa "amigos da sabedoria".

A importância desses três homens é tanta que muito do modo como pensamos hoje, principalmente no mundo Ocidental, vem das ideias que eles desenvolveram há mais de dois mil anos.

Para entendermos o papel de Aristóteles na história da ciência devemos primeiro entender o ambiente intelectual em que ele viveu e que ajudou a construir.

 

Todas as formas de conhecimento

Se hoje o conhecimento humano é um conjunto de muitas disciplinas, estudadas cada uma por um tipo de especialista, nos tempos de Aristóteles os filósofos se esforçavam para dominar todas as formas de conhecimento. Ser filósofo na Grécia Clássica podia significar ser ao mesmo tempo escritor, poeta, músico, matemático, geômetra, político, teólogo e, claro, cientista.

Mas, antes de Aristóteles, a ciência - pelo menos a ciência natural da qual tratamos aqui - não tinha muito prestígio entre alguns dos mais importantes filósofos. Platão, o mestre de Aristóteles, considerava o mundo natural inferior ao mundo das ideias, onde residia a verdadeira perfeição, da qual este nosso mundo seria apenas um conjunto de sombras imperfeitas.

Assim, para ele era melhor gastar o tempo filosofando sobre as formas do triângulo do que observar o mundo à sua volta.

 

Observação e método

A importância de Aristóteles na história da ciência vem do fato de ele ter sido um dos primeiros a ir contra este desprezo filosófico pelo mundo natural. Como médico, Aristóteles sabia a importância da observação para encontrar a melhor resposta de um problema, afinal, a medicina até hoje conserva a prática de observar sintomas, diagnosticar e receitar tratamentos.

Só que a observação científica tem um caráter particular, que a diferencia do olhar apenas curioso com que os homens sempre contemplaram o mundo. A observação científica é metódica, ou seja, segue um método, regras que definem o que, como e quando observar de modo a obter o máximo de informação e aprendizado sobre o que se observa.

 

Contribuições de Aristóteles

Nisto Aristóteles também foi pioneiro, pois não era apenas um observador curioso e contemplativo da natureza. Foi um observador metódico, cujo rigor na descrição e registro de seus estudos sobre os animais impressionou até Charles Darwin, mais de vinte séculos depois.

Só por valorizar a observação metódica da natureza, rompendo com a má vontade que filósofos de então tinham contra esta prática, Aristóteles já teria feito uma contribuição enorme ao progresso científico.

Mas há outra coisa, tão importante quanto ou mais ainda. Ninguém há de negar que associamos nossa ciência moderna ao pensamento analítico. Não é assim? Temos o pensamento científico como um raciocínio exato e esmerado, onde não cabe qualquer resquício de contradição.

 

O inventor da lógica

Ou seja, a Ciência é essencialmente lógica. Bem, Aristóteles foi o inventor da lógica. Pelo menos, daquilo que chamamos assim, os modos de pensar pelos quais depuramos um pensamento até lapidar nele sua máxima coerência.

Outro ponto importante é que Aristóteles dedicou muito de sua filosofia a entender as causas de tudo que observava. Entender as causas dos diversos fenômenos é a razão de ser da maioria dos experimentos da ciência moderna.

Por isto e muito mais, Aristóteles tem uma importância tal na história da ciência que o escolhemos para ser nosso primeiro visitado neste pequeno passeio. Mesmo porque, a importância do pensador de Estagira nem sempre é lembrada nos livros de ciência de hoje, muitos dos quais preferem recordar apenas as teorias científicas erradas do grande filósofo e não sua contribuição aos fundamentos da ciência.

 

Os erros do mestre

Quer dizer que Aristóteles tinha teorias erradas? Sim, e muitas.

As mais lembradas são seu modelo cosmológico geocêntrico, que propunha que o Sol e as estrelas giravam em torno da Terra, que seria o centro do universo. A teoria está errada, claro, já que é a Terra que gira em torno do Sol, não o contrário. Nosso planeta é um corpo celeste modesto demais para pretendermos que seja o centro do universo.

Mas apesar de errada, era uma ideia bastante sofisticada para época, quando a maioria dos povos ainda acreditava nas versões mitológicas sobre o tema, principalmente considerando que Aristóteles não dispunha de telescópios ou qualquer outro instrumental técnico para desenvolver seu modelo.

O filósofo também errou quando defendeu sua versão da teoria da abiogênese, que dizia que os seres vivos podiam ser gerados pela matéria bruta, como uma pedra deixada na água se transformar em um peixe. Outro furo, mas esta crença só foi abolida definitivamente por Louis Pasteur, no século 19.

 

Contribuição ao método científico

E, se a biologia de Aristóteles, mesmo com algumas falhas graves, manteve-se respeitável e respeitada por milênios, suas ideias na área da ciência física não foram muito longe, a maioria suplantada por teorias mais elaboradas nos séculos que se seguiram.

Só que a contribuição inestimável de Aristóteles ao método científico suplanta em muito seus erros como pesquisador e teórico. Seu legado de conhecimento obtido pela observação, método e lógica seguem desde a antiga Grécia como fundamentos indispensáveis da boa ciência.

Carlos Roberto de Lana, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é professor e engenheiro químico.

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