Quanto custa ser analfabeto?

Priscila Cruz

Priscila Cruz

Todos compreendemos que o fato de não saber ler e escrever prejudica a vida de um indivíduo de inúmeras formas –tantas, que é muito difícil enumerá-las. Na coluna passada, quando discutimos esse tema aqui, afirmei que o custo do analfabetismo é o custo de uma vida plena e de qualidade --e, consequentemente, o custo moral de um país.

É possível, porém, colocar esses custos em números que nos ajudam a ter ideia do quadro de prejuízo que ser analfabeto pode acarretar à trajetória de vida dos brasileiros. O exemplo mais palpável é a diferença salarial entre pessoas alfabetizadas e pessoas não alfabetizadas.

Dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE, tabulados pelo Todos Pela Educação, mostram que, dentre a população de 25 anos ou mais, os alfabetizados ganham 3,94 vezes o salário de alguém que se autodeclara analfabeto. Ou seja: enquanto o rendimento médio de uma jornada de 40 horas semanais de um indivíduo que sabe ler e escrever é de R$ 2.768,74, um empregado não alfabetizado recebe R$ 702,25.

Resumindo: as condições e oportunidades financeiras são quase quatro vezes menores para os adultos analfabetos no país. É uma diferença abismal, que fica ainda mais absurda quando pensamos que muitos brasileiros e brasileiras que não se alfabetizaram no decorrer da vida sustentam famílias inteiras com salários muito baixos.

O analfabetismo funcional se aplica a pessoas que, apesar de serem capazes de identificar letras e números, não têm pleno domínio da escrita e da leitura e não conseguem realizar operações matemáticas mais elaboradas (leia mais aqui). Essa condição causa danos a empregados e empregadores.

Em 2002, um estudo mostrou que o analfabetismo funcional consumia U$ 6 bilhões das empresas brasileiras. Isso porque a falta de compreensão e interpretação da escrita acarreta perda de produtividade, prejudicando o bom desempenho no trabalho.

Situação semelhante ocorre fora do Brasil. Anos antes da publicação desse estudo, uma pesquisa de 1999 da agência National Alliance of Business e do National Institute for Literacy calculou em US$ 60 bilhões anuais o prejuízo dos Estados Unidos com funcionários que não conseguiam ler e entender instruções de segurança e normas de trabalho. Ao não compreender o que tinham que fazer, eles colocavam a própria vida em risco.

O Plano Nacional de Educação (PNE), como se sabe, instituiu a erradicação do analfabetismo até 2024 no país. Entre as estratégias para que a meta seja cumprida, existe uma série de ações, como transporte, alimentação, serviços de saúde e até um programa de transferência de renda para garantir que esses potenciais alunos se matriculem e se alfabetizem.

No entanto, sabemos que a Educação de Jovens e Adultos ainda é uma modalidade deixada de escanteio pelas políticas públicas. A escassez de propostas, os problemas de oferta e a falta de investimentos, combinados com a dificuldade em atrair esse público e mantê-lo na escola, formam uma equação que pode impossibilitar o cumprimento do PNE. Essa conta --bem mais complexa do que qualquer problema matemático-- precisa ser solucionada com urgência.

O prazo está dado. Sabemos o que fazer. E sabemos por quê. Investir na alfabetização da população de jovens e adultos é evitar todos os prejuízos financeiros que aqui enumeramos --mas, principalmente, é garantir uma vida cidadã a todos os brasileiros.

*Com a colaboração de Mariana Mandelli

Priscila Cruz

Priscila Cruz é fundadora e presidente-executiva do movimento Todos Pela Educação. Graduada em Administração (FGV) e Direito (USP), mestre em Administração Pública (Harvard Kennedy School), foi coordenadora do ano do voluntariado no Brasil e do Instituto Faça Parte, que ajudou a fundar.

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