#EducaçãoPorElas: Como a escola pode ajudar a ressignificar o papel das mulheres

Priscila Cruz

Priscila Cruz

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"Ela é uma menina levada". Assim Khushal Yousafzai refere-se à irmã, ninguém menos que a mais jovem laureada com o Prêmio Nobel da Paz, Malala Yousafzai. No trecho do documentário He named me Malala (2015), disponível no Netflix desde o ínicio de janeiro, ele complementa entre risos: "Vocês acham que ela é boazinha porque ela fala de direitos, mas não é bem assim". Malala, a menina que continua subvertendo as expectativas sobre o que ela, como mulher e muçulmana, deveria ser ou fazer dentro ou fora de casa.

Ainda que as dificuldades políticas e sociais das mulheres e meninas em todo mundo sejam complexas, da história de Malala, uma lição deve ser soprada aos quatro cantos: família e escola são fundamentais para criar meninas corajosas e capazes de virar o jogo.

Identificar esses lugares de potência é poderoso porque, para muitas delas, esses podem ser espaços seguros de desenvolvimento, estratégicos para questionar as tradições e as realidades políticas, econômicas e sociais que mínguam o potencial das mulheres.

Nossas meninas precisam de oportunidades em que possam ressignificar seus papéis sociais, transformando seu próprio projeto de vida e o mundo - como fizeram Malala e outras tantas mulheres que desafiaram saber e fazer mais, como a inglesa Jane Austen, a norte-americana Mary Winsor, a polonesa Marie Curie, a norte-americana Ada Lovelace, a brasileira Carolina de Jesus, a turca Sabiha Gökçen, a portuguesa Nísia Floresta, e inúmeras mais, a maioria sem ter sua história e contribuições devidamente registradas e reconhecidas.

Mas engana-se quem acredita que as meninas estão sentadas esperando por nós. O Brasil e o mundo assistem a uma onda de movimentos (como o Chega de fiu-fiu#PrimeiroAssedio#MeuAmigoSecreto,  #Time"sUp#MeToo#HeforShe#EscolaSemMachismo) que demandam mais que igualdade; demandam um palavrão chamado equidade: reconhecimento do que é direito de cada um, levando em conta as diferenças que os separam. Elas reivindicam não apenas serem respeitadas e valorizadas como mulheres, mas que suas diferenças de etnia, classe social e orientação sexual também o sejam.

Assim, não basta que a escola receba todos, ela deve impulsionar cada um considerando seus obstáculos específicos, para que todos cheguem juntos a lugares diferentes, sem perder a identidade e a liberdade.

O primeiro passo é simples: acreditar nas meninas, nas mulheres. Diversas pesquisas revelam que quanto maior a expectativa positiva, melhor o desempenho acadêmico. Em complemento a isso, um levantamento do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) indica que as meninas se sentem menos seguras antes de avaliações de disciplinas de exatas que de outras áreas. Mas elas estudam mais, têm mais anos de estudo. Estamos fazendo algo errado? Certamente. Se não o desempenho escolar, a sociedade prova isso.

Segundo uma pesquisa da Organização das Nações Unidas para a Ciência e a Cultura (Unesco) sobre a participação de mulheres nos ramos da ciência, tecnologia, engenharia e matemática, os professores tendem a avaliar as performances das meninas em matemática abaixo da apresentada pelos meninos, mesmo quando elas têm desempenhos semelhantes.

Outro indício de que algo está errado são as reivindicações feitas, diga-se de passagem, em pleno século 21, por mulheres do mundo todo. Vejamos: não ser depreciada pelo gênero, aparência ou relação de poder, não sofrer violência física ou psicológica, não ter o desenvolvimento pessoal condicionado à não maternidade ou ao assédio. Petições razoáveis na busca por uma sociedade igualitária.

Essa discussão não pode passar ao largo das escolas, pois é a Educação, com o apoio da família, que traz independência, coragem e empatia. Quanto mais vezes abordarmos os temas relacionados à igualdade de gênero, mais estudantes dirão não às múltiplas violências às quais a mulher está submetida.

Precisamos apoiar nossas garotas a voarem alto, tão alto que se tornem astronautas ou pilotas, tão alto que queiram chamar outras ao cortejo. E não faltam materiais de qualidade sobre o assunto. No ano passado, a ONU Mulheres disponibilizou uma proposta de currículo para a igualdade de gênero e o combate à violência contra a mulher no Ensino Fundamental junto à campanha #EscolaSemMachismo.

Sabendo que nenhuma transformação social será efetiva sem a participação dos educadores, a Unesco lançou, em 2015, um guia para Igualdade de Gênero para os professores.

Parece que, felizmente, a mudança está aportando também na terra brasilis. Uma pesquisa do ano passado, encomendada pela ONU Mulheres, indicou que 75% dos brasileiros querem políticas pela igualdade de gênero. Esses são dados encorajadores, pois apontam para famílias mais receptivas às pautas das meninas e mulheres brasileiras.

Sem pais e mães que encorajem os filhos desde pequenos a agirem com liberdade, dando-lhes estímulos iguais (e não delicadeza para a menina e curiosidade para o menino), é difícil que as meninas desenvolvam características que as favoreçam em determinadas trajetórias de vida. É como se lhes fossem retiradas as opções, mesmo antes de que pudessem escolher.

O mundo está em um ponto de virada para as mulheres, em um momento em que, nas palavras de Malala, você deve escolher: se ficará em silêncio ou se erguerá, e a escola não poderá se omitir.

Priscila Cruz

Priscila Cruz é fundadora e presidente-executiva do movimento Todos Pela Educação. Graduada em Administração (FGV) e Direito (USP), mestre em Administração Pública (Harvard Kennedy School), foi coordenadora do ano do voluntariado no Brasil e do Instituto Faça Parte, que ajudou a fundar.

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