Tecnologia: prática pedagógica liderada pelo professor faz toda a diferença

Priscila Cruz

Priscila Cruz

  • João Bittar

Ao liberar o uso de celular na sala de aula, a rede estadual de São Paulo jogou luz à inquietação de muitos professores: tecnologia na escola atrapalha ou ajuda? Que a tecnologia digital, e a própria internet, cria novas oportunidades não é novidade.

A pesquisa Percepção Pública de Ciência & Tecnologia no Brasil, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), de 2015, mostra que a população brasileira dá grande valor a essas duas áreas, mesmo que não as compreenda bem.

Vários exemplos prosaicos atestam essa utilidade. A retirada de documentos em displays sem o apoio humano ajuda a ganhar tempo, ao menos para algumas pessoas, pois, além de exigir que os usuários sejam alfabetizados, o aparelho requer a identificação de signos e a compreensão da navegação em uma trilha digital. 

Não se trata, portanto, apenas de instrumentais úteis, mas de uma nova linguagem que atravessa todas as esferas da vida, como aponta o sociólogo espanhol Manuel Castells. E daí o assunto ser objeto de discussões educacionais, e com razão.

Se por um lado o uso da tecnologia pode mitigar as desvantagens históricas e socioeconômicas entre as crianças e os adolescentes, como aponta documento recente da Unesco, por outro, exige-se um modelo pedagógico que envolva ativamente o aluno. Do contrário, a inclusão de ferramentas tecnológicas pode até impactar negativamente na aprendizagem, como apontam algumas pesquisas.

É sim, a escola, o espaço público estratégico capaz de garantir, para os diferentes segmentos sociais, o letramento digital essencial para que as crianças e os adolescentes não apenas utilizem as ferramentas digitais, como criem, explorem e descubram novas possibilidades. O letramento digital (em inglês, digital literacy, termo cunhado pelo norte-americano Paul Glister) propõe mais que o manuseio passivo dos dispositivos; propõe a organização, interpretação, avaliação e criação de informação digital em seus múltiplos formatos.

Em se tratando do Brasil, onde as desigualdades são enormes, um trabalho pedagógico de qualidade com a cultura digital na escola é ainda mais premente. Enquanto 98% das crianças brasileiras entre 9 e 17 anos das classes A e B estão conectadas, nas classes C e D, essa taxa é de 66%, como revela a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2016, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br). Entre as zonas urbana e rural, a diferença repete-se: 81% contra 65%, respectivamente. Apesar disso, apenas 50% das escolas de Ensino Fundamental estão conectadas.

Tal cenário exige que a tecnologia seja integrada como parte dos currículos escolares, ressignificada como uma linguagem de possibilidades e responsabilidades e contextualizada com os saberes tradicionais. Como não poderia deixar de ser, é impossível avançar nessa proposta sem envolver o professor, que se frise: não apenas como um mediador, mas ele mesmo como um usuário crítico da tecnologia. Um estudo da organização McKinsey&Company revela que a melhoria da aprendizagem a partir do uso da tecnologia tende a ocorrer quando o professor está à frente desse trabalho.

Para isso, condições básicas devem ser oferecidas de modo que o docente não apenas use dispositivos digitais como suporte (slides, por exemplo), mas como ferramentas pedagógicas. As barreiras que impedem essa apropriação foram apontadas por uma pesquisa do movimento Todos Pela Educação em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Instituto Natura, Itaú BBA, Fundação Telefônica Vivo e Samsung. Segundo o estudo lançado neste ano, a sobrecarga de trabalho e a falta de infraestrutura e de formação impedem que os docentes sejam usuários mais propositivos e frequentes.

Esses são problemas que vão na contramão dos esforços da gestão pública em reformar a escola, que impedem que o ensino seja mais atraente e alinhado à nova realidade social. Para além do uso nas salas de aula, as ferramentas tecnológicas podem ser aplicadas também a processos que facilitem e potencializem o trabalho dos educadores, como aponta a organização Global Education and Skills Forum - Alliances on Assessment for Learning (Fórum da Educação Global e Habilidades - Alianças de Avaliação para a Aprendizagem), da Varkey Foundation, sobre a utilização de ferramentas para a coleta e interpretação de dados de avaliações.

A pesquisa do Todos pela Educação indica algo semelhante. Segundo os docentes, a aplicação de provas, a seleção de materiais para aulas e o acompanhamento individual de alunos são as atividades que mais os sobrecarregam. Isto é, há espaço de otimização a ser ocupado pelas políticas públicas de tecnologia. Outro hiato é a formação dos docentes na área. A maioria (72%) de nossos professores não está capacitada para utilizar ferramentas como softwares e games.

A última versão da Base Curricular Comum Nacional (BNCC), em processo de homologação no Executivo, dá um passo certeiro ao incorporar a tecnologia na área de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental (cabe citar a ressalva anterior: 50% das instituições não têm acesso à internet). Contudo, é preciso assegurar o uso pedagógico dos suportes digitais, onde a criatividade e o protagonismo estudantil sejam o centro, de maneira que tais dispositivos não sejam uma distração a mais.

Com a colaboração de Pricilla Kesley

Priscila Cruz

Priscila Cruz é fundadora e presidente-executiva do movimento Todos Pela Educação. Graduada em Administração (FGV) e Direito (USP), mestre em Administração Pública (Harvard Kennedy School), foi coordenadora do ano do voluntariado no Brasil e do Instituto Faça Parte, que ajudou a fundar.

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