Você tem orgulho de ser brasileiro?

Priscila Cruz

Priscila Cruz

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A resposta para a pergunta acima, segundo uma pesquisa do Datafolha, é "não" para 47% dos brasileiros entrevistados pelo instituto em junho deste ano, que afirmam ter vergonha da própria nacionalidade. A taxa é recorde desde que o índice começou a ser medido, no ano 2000.

Uma porcentagem assim é bastante triste, mas esperada. Não é novidade para ninguém que atravessamos um dos períodos mais difíceis da nossa história. Aposto que você já deve ter se pegado pensando que essa crise política, econômica e moral não terá fim e que, inevitavelmente, estamos condenados a viver em um país onde a corrupção se sobrepõe à lei em todas as esferas sociais. Corrupção essa que, segundo o Datafolha, figura como o principal problema do Brasil no momento, atingindo 22%. Com o mesmo índice aparece a saúde, tida por 22% da população como o nosso principal problema. Em seguida, temos o desemprego (17%), a educação (11%), a violência/segurança (8%) e a economia (5%).

Porém, quando destrinchamos os dados acima e olhamos apenas para os brasileiros com nível superior, 21% deles pensam que o maior entrave do país é a educação, taxa que fica atrás apenas – como não deveria deixar de ser – da corrupção, com 28%. A conclusão disso é uma só: aqueles que tiveram acesso à educação têm certeza da importância dela para o desenvolvimento de uma nação.

Essa certeza tem fundamento. Um estudo da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) intitulado "Reduzindo a pobreza global através do ensino primário e secundário universal" mostra o nexo entre desenvolvimento e educação. De acordo com o relatório, a pobreza mundial do planeta cairia pela metade se toda a população adulta tivesse cursado o ensino médio.

A pesquisa também destaca motivos pelos quais investir em educação traz bons efeitos para a economia. O mais óbvio é a capacitação das pessoas para o mercado de trabalho e a vida prática. Mas as consequências também são positivas para a sustentabilidade e a saúde, já que, segundo a Unesco, pessoas com conhecimento formal terão informações suficientes para lidar com as mudanças climáticas – evitando tragédias – e saberão cuidar de seus filhos – evitando que peguem doenças contagiosas, por exemplo.

Olhando para o Brasil, sabemos que nosso problema é histórico. A tese de pós-doutorado do professor Renato Colistete pela Universidade de São Paulo (USP) mostra como nosso atraso educacional começou lá atrás, no século XIX: enquanto vivíamos o período da Independência, países que hoje são considerados desenvolvidos empenhavam-se em inserir as suas crianças no ensino básico.

Chega a ser inacreditável que ainda não tenhamos colocado a educação no eixo central de desenvolvimento do nosso país, fechando os olhos para o seu protagonismo. Temos informações suficientes para enxergar a transversalidade dessa questão educacional e o fato de ela trazer benefícios para todas as outras áreas.  O que estamos esperando? O caminho para a melhora na economia, na sustentabilidade e na saúde está dado. Trilhá-lo será motivo de orgulho para todos nós.

Com a colaboração de Mariana Mandelli

Priscila Cruz

Priscila Cruz é fundadora e presidente-executiva do movimento Todos Pela Educação. Graduada em Administração (FGV) e Direito (USP), mestre em Administração Pública (Harvard Kennedy School), foi coordenadora do ano do voluntariado no Brasil e do Instituto Faça Parte, que ajudou a fundar.

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