Educação: expectativa x realidade

Priscila Cruz

Priscila Cruz

  • João Bittar/MEC

Quase como um exercício de expectativa versus realidade, a Varkey Foundation decidiu testar se a percepção das pessoas sobre Educação corresponde à qualidade do ensino. O estudo cruzou as médias do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) de 21 países com um indicador de qualidade atribuído à Educação com escala de 0 a 10. Surpresa: o Brasil foi o país que revelou a maior distorção entre percepção e realidade na área. Ou seja: apesar de nossos sistemas públicos de ensino ainda apresentarem baixa qualidade, os cidadãos brasileiros enxergam um quadro oposto.

Países como Singapura e China, apesar dos bons resultados no exame, revelaram-se os países mais exigentes, indicando que esperam ainda mais do alto desempenho que já apresentam. Já na Finlândia, a pontuação no Pisa e o nível de percepção positiva andam juntos, indicando harmonia entre o que é oferecido pelo governo e o que espera a sociedade finlandesa.

Embora nossa expectativa no ensino não seja alta, os dados brasileiros indicam que avaliamos nossas escolas muito melhor do que nossa performance permite. É curioso relembrar que a distorção de percepção sobre qualidade de ensino e desempenho não é exclusividade do Brasil. Antes da aplicação do primeiro Pisa, em 2001, pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a comunidade internacional acreditava que os melhores sistemas de Educação do mundo se situavam nos Estados Unidos, na Alemanha e na França, principalmente por conta dos resultados desses países em olimpíadas acadêmicas. No entanto, os dados do exame acabaram dando visibilidade ao sistema de ensino finlandês, que obteve a maior nota nas três áreas avaliadas pela prova: matemática, ciência e leitura.

Essas falsas expectativas são um problema na medida em que a pressão pública por melhorias na Educação depende de uma visão mais crítica combinada com as verdadeiras necessidades dos professores e dos alunos. No Brasil, um país que ainda está tentando superar dificuldades que remontam ao século passado, isso é ainda mais grave. Em um ano que antecede as eleições, esse é um dado que não pode passar ao largo das discussões sobre opinião pública e políticas sociais.

Principalmente, quando consideramos que, em um ranking geral, a Educação ainda não é nem a primeira nem a segunda dimensão social que mais nos preocupa, a despeito dos estarrecedores resultados de desempenho em competências básicas como leitura, escrita e matemática na alfabetização das crianças, por exemplo. A Educação é, segundo o DataFolha, o 4º de uma lista de sete principais problemas do Brasil neste ano, sendo que a corrupção, a saúde e o desemprego, figuram nas principais posições.

Essa maneira de olharmos para a Educação não é nova. Há 12 anos, em uma pesquisa sobre a qualidade do sistema público de ensino, realizada pelo Ministério da Educação (MEC), a população deu notas entre 7 e 8 para diferentes quesitos das escolas públicas, embora o diagnóstico da nossa qualidade de ensino e infraestrutura escolar fosse ainda mais preocupante do que atualmente.

Essa tendência a um olhar positivo deve ser debatida à luz de nossas desigualdades. Os mais pobres ainda acessam menos a escola, o que significa que, para muitos, obter uma vaga já é visto como um privilégio, sendo a qualidade uma espécie de coadjuvante. Dados do Todos Pela Educação, mostram que sempre houve diferença no atendimento escolar entre ricos e pobres. Embora tenhamos diminuído consideravelmente essa distância, em 2015, metade das crianças e jovens fora da escola pertencia à população mais pobre, contra 2,8% da população mais rica.

Garantir vagas é o mínimo e é urgente, no entanto, a luta por qualidade deve ser uma obsessão nacional, pois o Brasil ainda está distante de garantir as mesmas oportunidades educacionais para todos. Uma radiografia de seis áreas mostra o tamanho dos desafios para efetivamente garantirmos a qualidade de ensino que tanto esperamos:

Financiamento: enquanto a diferença entre o investimento em Ensino Médio e Ensino Superior na Finlândia é de US$ 199, no Brasil esse valor chega a US$ 6.715;

Gestão de Educação: cerca de 70% dos casos de desvios de verba estão relacionados às áreas de Educação e saúde, segundo a Advocacia Geral da União;

Infraestrutura: muitos alunos não têm o mínimo humanamente necessário para se concentrar em aprender. Cerca de 18% das escolas que nossas crianças e jovens frequentam não apresentam infraestrutura básica, como esgoto sanitário, água filtrada, banheiro e energia elétrica;

Tempo de aprendizagem: os professores brasileiros gastam 40 dias do ano letivo com outras tarefas que não o ensino. Ou seja: 20% do tempo de conteúdo é desviado. Além disso, a porcentagem de matrículas na rede pública em tempo integral na Educação Básica é de apenas 11,5%;

Professores: cerca de 22% de nossos docentes não têm formação em Ensino Superior. Isso significa que muitos alunos passam grande parte do tempo escolar com um profissional que não domina o conteúdo e as metodologias de ensino mais eficazes;

Educação Infantil: cerca de 33% das crianças entre 0 e 3 anos frequentam a creche. No entanto, a pesquisa Primeiríssima Infância, da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal em parceria com o Ibope Inteligência, indica que a demanda por creche é de 56%.

Os dados mostram que ainda não temos motivos para termos uma boa percepção de nossa Educação Pública. Devemos cobrar o máximo de direitos para nossos estudantes e ajustar nossas lentes para focar os obstáculos mais prementes, não permitindo que haja desvios do potencial máximo que todo cidadão deveria ter o direito de atingir por meio da Educação.

Priscila Cruz

Priscila Cruz é fundadora e presidente-executiva do movimento Todos Pela Educação. Graduada em Administração (FGV) e Direito (USP), mestre em Administração Pública (Harvard Kennedy School), foi coordenadora do ano do voluntariado no Brasil e do Instituto Faça Parte, que ajudou a fundar.

UOL Cursos Online

Todos os cursos