O berço da desigualdade educacional

Priscila Cruz

Priscila Cruz

  • João Bittar/MEC

O fato de o Brasil ter uma das maiores taxas de desigualdade social do mundo não é novidade. Hoje, somos a décima nação mais desigual do planeta, de acordo com o Relatório do Desenvolvimento Humano (RDH), elaborado pelas Nações Unidas (ONU).

Também não é novidade que a Educação é considerada um dos fatores de maior potencial para corrigir tal desigualdade. Não são poucas as pesquisas que mostram a sua força para ajudar a criar um país mais equânime.

No entanto, há uma variável nessa conta (mais Educação, menos desigualdade) aparentemente simples: a qualidade. Simplesmente aumentar o acesso de crianças e jovens ao sistema educacional não resulta automaticamente em mais justiça social. Ou seja, não é qualquer Educação que deve ser oferecida. Isto porque os riscos de assim aumentar as desigualdades já existentes são latentes.

O último Relatório de Desenvolvimento Global WDR 2018, realizado pelo Banco Mundial, demonstra exatamente isso ao analisar o desempenho de alunos considerados ricos e pobres em um mesmo país e também entre países. De acordo com o documento, vivemos uma "crise global de aprendizagem", uma vez que muitos estudantes não estão aprendendo, apesar de estarem matriculados em instituições de ensino. Vale lembrar que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) também vem alertando para isso há anos, afirmando que a escola deve mudar para não agravar o abismo de oportunidades entre ricos e pobres.

Os dados do WDR 2018 também apontam para um quadro de agravamento da distância entre os países mais e menos desenvolvidos economicamente, já que em nações de renda considerada baixa ou média, mais da metade das crianças não apresentam desempenho mínimo em leitura e matemática.

O caso do Brasil corrobora os dados do relatório do Banco Mundial. Os dados da última edição da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA), divulgados pelo Ministério da Educação (MEC) no mês passado, mostram um país estagnado que não tem conseguido alfabetizar as suas crianças justamente na etapa da escolaridade na qual esse processo deve ocorrer. De acordo com a pasta, 55% dos alunos do 3° ano apresentam aprendizado insuficiente em leitura e matemática e 34% em escrita. Quer dizer, temos uma exclusão de partida para metade das nossas crianças, uma vez que sabemos que as desigualdades se acumulam ao longo da trajetória escolar. As oportunidades básicas de aprendizagem perdem-se. Não há cidadania sem alfabetização.

A ANA ainda indica que, em leitura, 20% das escolas não conseguem alfabetizar nem um quarto dos seus alunos – em matemática, essa taxa aumenta para 22% das escolas. Além disso, escolas com nível socioeconômico maior têm praticamente o dobro de capacidade de alfabetização em relação àquelas com nível socioeconômico menor. Um cálculo rápido comprova que, nesse ritmo, levaremos 76 anos para que todos tenham proficiência em leitura.

Os dados confirmam que não há mais tempo a perder. No entanto, seguimos desperdiçando-o. Não há Educação de qualidade sem alfabetização. É simplesmente impossível progredir na trajetória escolar e adquirir conhecimento sem saber ler e escrever plenamente. Ou seja, não é possível haver aprendizagem na idade correta, diminuição das taxas de evasão/abandono, correção do fluxo escolar, aumento das taxas de conclusão, aumento das taxas de escolaridade e, consequentemente, da renda, sem a alfabetização de todas as crianças, sem abandonar nenhuma delas.

O Brasil precisa inserir a equidade como um dos principais – senão o principal – norte das políticas educacionais e isso começa durante o ciclo de alfabetização. Podemos não resolver todos os problemas do país com uma Educação de qualidade, mas certamente teremos crianças plenamente alfabetizadas e, futuramente, prontas para darem conta de suas próprias vidas.

*Com a colaboração de Mariana Mandelli

Priscila Cruz

Priscila Cruz é fundadora e presidente-executiva do movimento Todos Pela Educação. Graduada em Administração (FGV) e Direito (USP), mestre em Administração Pública (Harvard Kennedy School), foi coordenadora do ano do voluntariado no Brasil e do Instituto Faça Parte, que ajudou a fundar.

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