"Você é (só) professor?"

Priscila Cruz

Priscila Cruz

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Quem nunca assistiu a um dos sucessos cinematográficos em que um/a professor/a tem praticamente poderes mágicos? Em curtíssimo tempo, eles conseguem resolver tudo: compreendem os estudantes, dão um "chega para lá" nas condições materiais precárias e, em um passe de mágica, transformam a escola do dia para a noite, como se diz por aí.

Aparentemente elogiosa, essa imagem não é apenas incompatível com o mundo real, como também contribui para que tenhamos uma visão embaçada sobre o que é ser professor. Muita gente acha que é "parte do pacote da docência" ser um herói, resolver situações desafiadoras apenas com a força de vontade e fazer inúmeras tarefas caberem na agenda. Mas, como as leis da física já adiantaram, ninguém pode estar em dois lugares ao mesmo tempo.

Nesse sentido, precisamos urgentemente refletir sobre o tempo do professor, o profissional mais importante de toda a Nação. Ele precisa de tempo exclusivamente para o ensino ou a formação – isto é, períodos dedicados à discussão entre pares e sobre os dados produzidos na escola (avaliações formativas, planejamento dos professores, avaliações diagnósticas e demais informações das turmas), de modo a ter suporte para resolução dos problemas reais que o docente encontra no seu dia a dia (não dá pra esperar que ele faça tudo sozinho!).

Os desafios para formar integralmente um aluno (lembre-se que não é apenas para uma profissão, mas para a vida!) são muitos e requerem esse suporte. Por ora, estamos na mão contrária. Pelo menos é o que os próprios professores dizem na Pesquisa Profissão Docente, realizada pelo Todos Pela Educação em parceria com o Itaú Social.

Lançado nesta semana, o levantamento amostral traça um raio-x das dores e alegrias de ser professor no Brasil e, apesar de haver muitos aspectos positivos, grande parte do cenário é de desvalorização da profissão. A começar pelo fato de que muitos docentes sequer conseguem ser "só" professores: 29% deles declararam realizar atividades paralelas a sua função para complementar a renda. Embora a dupla jornada seja possível, as chances de que os dois trabalhos fiquem com uma qualidade aquém do esperado é grande!

A natureza das ocupações extras são as mais diversas, desde aulas de reforço até revenda de cosméticos, mas isso é o que menos importa. Independentemente do tipo de atividade, em maior ou menor grau, todas elas exigem tempo – um tempo que será retirado de outras tarefas.

Tão preocupante quanto as atividades paralelas, o uso que os professores fazem da carga horária de trabalho nas escolas também merece atenção. Por um motivo ou outro, esse tempo valioso nem sempre é distribuído conforme prevê a legislação.

De acordo com a pesquisa, apenas 27% dos docentes da rede pública dizem dedicar até dois terços a atividades de sala de aula e o restante (um terço) a atividades de planejamento de aula, conforme determina a Lei do Piso do Magistério. 42% deles indicam ainda que sequer contam com o tempo remunerado adequado para atividade extraclasse, outro aspecto previsto em lei.

Diante disso, dois movimentos são essenciais: identificar e entender os locais onde a remuneração para o trabalho extraclasse não tem ocorrido e reformular/reorganizar o uso do tempo dos professores, de modo que eles de fato usem o devido um terço para estudar/planejar. Essas são condições inegociáveis para avançarmos na qualidade da Educação, pois, se é inquestionável a importância do tempo de exposição do aluno ao aprendizado, o do professor não fica por menos.

A despeito da legislação, o uso do tempo docente ainda tem sido mal empregado – seja por planejamento individual ou coletivo ineficiente, seja por questões estruturais. Com isso, estamos perdendo duplamente: qualidade profissional e de aprendizagem.

Ser professor é, sim, ter muito amor por transformar a sociedade (como os próprios docentes apontam na pesquisa), mas é, sobretudo, uma profissão! Precisamos efetivar a legislação que rege as atividades extraclasse, driblar as tarefas burocráticas com o uso da tecnologia e garantir que o tempo de estudo e planejamento dos professores não apenas exista, como esteja alinhado às necessidades da sala de aula.

Priscila Cruz

Priscila Cruz é fundadora e presidente-executiva do movimento Todos Pela Educação. Graduada em Administração (FGV) e Direito (USP), mestre em Administração Pública (Harvard Kennedy School), foi coordenadora do ano do voluntariado no Brasil e do Instituto Faça Parte, que ajudou a fundar.

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