Por que a escola particular não é melhor que a pública

Priscila Cruz

Priscila Cruz

Muita gente se assusta quando ouve dizer que as escolas particulares não são melhores que as públicas. Outro dia eu disse isso em um programa de TV e choveram comentários questionando minha sanidade!

É difícil acreditar, pois é uma afirmação que se choca com uma percepção generalizada e com uma informação correta:

  • percepção: estamos acostumados a achar que o que é pago é melhor do que o que é público; 
  • informação: na média, os resultados finais das escolas privadas são melhores que o das públicas.  

Então, como dizer que a escola privada não é melhor que a pública, se ela tem os melhores resultados? É só ver os rankings do Enem, certo? 

Não. Por isso combatemos tanto os rankings de resultados. Em seguida, apresento dois fatos para justificar isso:

fato número 1: as médias das escolas nas avaliações de aprendizagem – que, por sua vez, são decorrentes dos resultados (desiguais) de seus alunos – são uma combinação de vários fatores, mas especialmente de dois:

  1. do que os alunos aprenderam fora da escola; e
  2. da capacidade de a escola adicionar novas aprendizagens.

Coloco aqui, na palavra aprendizagem, conteúdos, habilidades e, portanto, as competências dos alunos. Ou seja, que fatos e informações eles conhecem, de que forma usam essas informações em contexto, sendo assim competentes em algumas áreas (leitura, matemática, etc.).

Vocês sabem quanto representa cada um desses pontos acima na nota final de um aluno?

Há evidências na literatura da Educação que apontam que metade do resultado do aluno em testes é formado pelo seu aprendizado fora da escola, e outra metade, pelo que a escola acrescenta ao seu conhecimento. Há estudos que mostram até que a proporção é de 2/3 e 1/3, respectivamente.

Mas vamos ficar aqui com a estimativa mais conservadora, de meio a meio, e partir para o segundo fato:

fato número 2: quanto maior a renda da família, maiores as oportunidades de as crianças e jovens aprenderem fora da escola, pois têm maior possibilidade de acesso a bens culturais, livros, tecnologia, etc.

E voilá!! Como as escolas privadas recebem, em geral, alunos de  maior renda, que já partem de um patamar de aprendizagens mais alto, conseguem chegar a um resultado consequentemente melhor.

Da mesma forma, as escolas públicas, que atendem em geral alunos com renda mais baixa e aqueles historicamente mais excluídos, partem de um patamar mais baixo. E acabam por ter um resultado final menor.

Há escolas públicas que adicionam a mesma aprendizagem ou até mais do que as privadas, mas, ainda assim os resultados são menores, porque o ponto de partida é diferente.

Por isso, temos que parar de estigmatizar a escola pública com o rótulo de pior que a particular. 

Precisamos apoiar as famílias dos 40 milhões de alunos da escola pública (que são mais de 80% do total de estudantes da Educação Básica) com oportunidades educativas além da escola, como mais acesso a bens culturais, a leitura e a novos repertórios de conhecimento. Essa é uma frente que não podemos ignorar para avançarmos na qualidade da educação pública do País.

E é claro que o poder público tem um papel importantíssimo para isso, mas todos nós também podemos contribuir no nosso dia a dia. Como? Esse papo rende outro texto. Até a próxima quarta!

Priscila Cruz

Priscila Cruz é fundadora e presidente-executiva do movimento Todos Pela Educação. Graduada em Administração (FGV) e Direito (USP), mestre em Administração Pública (Harvard Kennedy School), foi coordenadora do ano do voluntariado no Brasil e do Instituto Faça Parte, que ajudou a fundar.

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