"De humanas" ou "de exatas"??

Priscila Cruz

Priscila Cruz

  • Vilmar Oliveira

Você sabia que no próximo dia 6 de maio é comemorado o Dia Nacional da Matemática? Qual é sua relação com essa tão amada ou temida disciplina?

A minha história com a matemática é muito parecida com a de diversas outras pessoas.

Primeiro, eu a amava. Era tão incrível descobrir as mágicas de que a matemática era capaz! Afinal, ela está por todos os cantos.

Depois, o pé atrás... Comecei a desconfiar: será que eu gostava mesmo dela? Sempre ouvia: se você é boa em português e história, então não deve ser muito boa em matemática. O mundo começava a se polarizar entre os "de humanas" e os "de exatas".

Aí peguei bronca da professora de matemática. Achava que ela me perseguia porque tinha sacado que eu era "de humanas". Como a adolescência é difícil!

Em todos os lugares eu passei a me autorreferir como uma aluna que era boa nas disciplinas de humanas e medíocre nas de exatas (apesar de as minhas notas não refletirem isso).

Até que mais tarde, no Ensino Médio, tive um professor que me mostrou que era possível adorar – de adoração mesmo – a matemática, além da física e da química. Nos anos 1990, comecei a ler livros sobre matemática – sobre a história das grandes equações matemáticas e seus autores –, sobre cosmologia (Carl Sagan era meu guru!) e sobre física quântica. Até que troquei de ídolo: sai Bono Vox, entra Albert Einstein. Tirei o pôster do primeiro para colocar na parede o do segundo (que até hoje está pendurado na minha casa).

Conto tudo isso porque esta minha narrativa biográfica tem elementos infelizmente comuns na vida de muitas pessoas: a criança gosta de matemática, depois passa a achar que não é pra ela, e, se tiver sorte, consegue sair disso com um ótimo professor que desperta de novo o encanto pela matéria. Mas nem todos têm essa sorte, ou melhor, a minoria talvez tenha, uma vez que, de acordo com os dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2013, pouco menos de 10% dos alunos do 3º ano do Ensino Médio apresentaram nesse ano um aprendizado da disciplina considerado adequado.

Eu tive também a sorte de ter conhecido, por meio do amigo Flávio Comin, dois professores de Harvard, o Bob e a Helen Kaplan. Eles desenvolveram um projeto de metodologia de ensino da matemática chamado Círculo da Matemática, que é absolutamente incrível. Vale a pena conhecer: http://www.ocirculodamatematica.com.br.

Aqui resumo a metodologia que pode servir de inspiração para todos os educadores, professores e pais.

1 - O perguntar incessante – Fazer a pergunta certa, e que ela seja simples e estimulante. Ser paciente e interagir estrategicamente.

2 - Ouvir de verdade – E, para apoiar a escuta, registrar as perguntas e respostas, mesmo as erradas. Isso ajuda nesse processo.

3 - A organização do quadro – Manter o raciocínio principal com o auxílio de outras partes do quadro, que podem ser compostas pelas respostas ou perguntas das crianças ou dos jovens.

4 - O erro – Usar o erro pedagogicamente ajuda a organizar melhor o pensamento.

5 - Estratégias inclusivas – Estimular a participação é um incentivo para que as crianças e os jovens se sintam incluídos e com vontade de participar mais.

6 - O fim – Ao se aproximar do fim, retomar o caminho lógico que seguiram para chegar ao resultado. Enfatizar os pontos importantes pode fazer toda a diferença.

7 - Os nãos – Focar a aula como sessão de cópia do quadro, sem o devido pensar, ou simplesmente passar pelo material, não ajuda a estimular o interesse das crianças em pensar matematicamente.

8 - As sutilezas – Saber quais são os pontos de acesso de cada criança à matemática e quais os pontos difíceis é muito importante para não deixar nenhuma delas para trás. 

Priscila Cruz

Priscila Cruz é fundadora e presidente-executiva do movimento Todos Pela Educação. Graduada em Administração (FGV) e Direito (USP), mestre em Administração Pública (Harvard Kennedy School), foi coordenadora do ano do voluntariado no Brasil e do Instituto Faça Parte, que ajudou a fundar.

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