O jovem no Brasil é levado a sério?

Priscila Cruz

Priscila Cruz

Desde o fim de 2015, vimos uma grande quantidade de notícias sobre as ocupações de escolas públicas por estudantes de vários estados brasileiros. As motivações desses alunos eram diversas, mas todas tinham uma pauta em comum: uma Educação de melhor qualidade! E eles pediam que ouvissem o que eles têm a reivindicar em relação à sua própria Educação. A mobilização desses secundaristas de norte a sul do país faz lembrar uma música do início dos anos 2000, mas que ainda parece ser muito atual: "o jovem no Brasil não é levado a sério".

Essa é uma boa reflexão para esta semana, já que em 12 de agosto comemoramos o Dia Internacional da Juventude – instituído em 1999 pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), com a ideia de debater temas importantes para os jovens. Na mesma data, celebra-se também o Dia Nacional dos Direitos Humanos, e em 11 de agosto, o Dia do Estudante.

Essas três datas, tão pertinho umas das outras no calendário, reforçam a ideia de que não dá para falar de jovens sem mencionar a Educação de qualidade como um direito da nossa juventude. Mas... como saber de que forma melhorar a escola se os próprios jovens afirmam que não são ouvidos dentro e fora dela? Para sabermos qual seria a "agenda" deles, precisamos primeiro saber o que eles querem – suas necessidades, ideias, demandas, vontades e sonhos.

Várias pesquisas dão algumas pistas sobre os anseios desses estudantes. Por exemplo, o estudo "Projeto de vida", realizado pela Fundação Lemman com apoio técnico do Todos Pela Educação, divulgado em 2015 (saiba mais aqui), ouviu jovens egressos do Ensino Médio, especialistas em Educação, professores universitários, empregadores e organizações da sociedade civil com o objetivo de saber se o que os estudantes aprendem na escola ajuda a prepará-los para os desafios da vida adulta. A resposta foi um grande "não", e mostrou uma disparidade entre as duas coisas.

A pesquisa mostrou ainda que, se por um lado os jovens se sentem mal preparados para lidar com as imposições da faculdade, do trabalho e da vida cotidiana, por outro os professores e empregadores sentem falta de competências básicas nos alunos dessa faixa etária, entre as quais:

  • dificuldade para interpretar e escrever textos, como e-mails de trabalho, por exemplo;
  • problemas para se expressar e defender argumentos oralmente;
  • dúvidas ao encadear ideias numa linha de raciocínio;
  • falta de domínio de conceitos básicos de matemática, como fazer contas simples e ler gráficos;
  • falta de conhecimento para lidar com problemas financeiros.

Para os especialistas que conduziram o estudo, é essencial compreender esses resultados para que possamos, enfim, construir um currículo que faça sentido na vida da nossa juventude. A discussão da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), atualmente em debate nos estados brasileiros, é uma grande oportunidade para que a voz desses jovens seja ouvida e respeitada. Ela é o documento que servirá como pilar para a construção do currículo de cada rede de ensino do país.

O engajamento do jovem em sua própria Educação é algo extremamente positivo para a vida dele, para a sua família e, claro, para o Brasil. É preciso que ele seja ouvido e levado mais a sério, dentro e fora das escolas, para que possamos ter cada vez mais motivos de comemorar o Dia Internacional da Juventude, o Dia do Estudante e o Dia dos Direitos Humanos.

Priscila Cruz

Priscila Cruz é fundadora e presidente-executiva do movimento Todos Pela Educação. Graduada em Administração (FGV) e Direito (USP), mestre em Administração Pública (Harvard Kennedy School), foi coordenadora do ano do voluntariado no Brasil e do Instituto Faça Parte, que ajudou a fundar.

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