Unidos pelas diferenças

Priscila Cruz

Priscila Cruz

"Mãe, se Deus existe, como é que tem tanta coisa ruim acontecendo no mundo?" A pergunta, de uma das minhas filhas, deu início a uma conversa que durou uma viagem de aproximadamente uma hora, levantando questões éticas – "é justo acontecer algo ruim a uma pessoa boa?" – e desafios de lógica – "se Deus é pai de todos, também é pai daqueles que acreditam em outros deuses?". As crianças questionam, seja em casa, seja na escola. Como responder? Em casa, é uma escolha das famílias, mas na escola o convívio com as diferenças pede um pouco mais de reflexão.

Valores como solidariedade, justiça e o respeito às diferenças são imprescindíveis, ainda mais em um momento tão complexo, desigual e conflituoso da humanidade. Os valores são vivenciados. E podem ser debatidos, sempre – nesse sentido, um projeto do qual que sou particularmente fã é o voluntariado educativo, que pode ser uma estratégia para colocar em prática valores e habilidades importantes para a vida (veja aqui um pouco mais sobre essa proposta: http://zip.net/bstmHt). 

Doutrinas ideológicas ou religiosas, por outro lado, são escolhas – inicialmente da família, e mais tarde do indivíduo.

Será então que as escolas brasileiras – tanto públicas como privadas – devem ensinar doutrinas religiosas ou dar oportunidade para seus alunos vivenciarem valores? Para mim, é óbvio que na sua missão de preparar as crianças e jovens para a vida, para a cidadania e até para o mundo do trabalho, é essencial que as escolas estimulem vivências e debates de princípios éticos e morais. 

Contudo, com a formulação da Base Nacional Comum Curricular em andamento, tem havido pressão de grupos religiosos para que as escolas ensinem aquilo que eles defendem.

Ora, a um estado laico e, logo, à escola pública não cabe contestar a fé de ninguém, e exatamente por isso não cabe impor a fé de um grupo específico. Portanto, não há cabimento em cogitar um ensino público baseado em qualquer que seja a religião – como propõe um projeto de lei sobre o qual falei aqui: http://zip.net/bhtmGk –, já que, por ser de acesso universal, as escolas públicas devem ser abertas a debater todas as manifestações e crenças religiosas, inclusive em uma perspectiva histórica, para ajudar a entender os caminhos trilhados pela humanidade. 

Mais do que isso, é papel formador da escola promover o respeito às diferenças e o convívio entre os indivíduos de diferentes crenças, aparências e culturas. Não se ensina esse valor essencial quando se vive em segregação. Quanto mais promovermos e celebrarmos as diferenças, mais intenso será o que nos une. 

O Brasil tem diversos problemas sociais, econômicos e educacionais, entre tantos outros, porém tem algo que nos orgulha e que é invejado por muitas sociedades: a convivência pacífica de diversos grupos religiosos. Isso é algo muito raro, que deve ser celebrado e preservado – há exemplos mundo afora que nos mostram como a intolerância é cruel, especialmente com as crianças. 

Além disso, é importante ressaltar que a BNCC, como já expliquei em um artigo (aqui: http://zip.net/bgtmkn), não é o todo, e nem deve ser. 

Afinal, queremos que nossos filhos sejam pessoas preparadas para a vida, não é mesmo? Pois bem, isso passa pelo conhecimento científico, histórico e filosófico, da maneira mais crítica e abrangente possível. 

Priscila Cruz

Priscila Cruz é fundadora e presidente-executiva do movimento Todos Pela Educação. Graduada em Administração (FGV) e Direito (USP), mestre em Administração Pública (Harvard Kennedy School), foi coordenadora do ano do voluntariado no Brasil e do Instituto Faça Parte, que ajudou a fundar.

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