Educação de má qualidade mata lentamente

Priscila Cruz

Priscila Cruz

Quem tem filhos, sobrinhos ou crianças próximas já se pegou dizendo: onde você aprendeu isso? Essa perplexidade é tão comum porque realmente é surpreendente para nós, adultos, a capacidade de aprendizagem das crianças. Pode ser uma música em inglês cantarolada pela casa, a afirmação de que os seres vivos vieram do pó das estrelas, uma palavra não muito coloquial (a minha filha mais velha sempre usa "entretanto", em vez do simples "mas"). Quando começam a ir para a escola, a dormir na casa dos amigos, a circular pelo mundo sem a nossa presença, as surpresas aumentam ainda mais. A cada dia surge um monte de aprendizados, perguntas e coisas novas.

Aprender é natural. Nem se quiséssemos poderíamos evitar. É como respirar.

Até dentro da barriga da mãe o bebê já está aprendendo. Toda criança aprende, pode aprender, vai aprender.

Então, por que convivemos com tanta naturalidade com o fato de algumas crianças aprenderem e outras não? Por que nos indignamos tão pouco com o fato de apenas metade das crianças estarem alfabetizadas aos 8 anos de idade? Por que aceitamos tão facilmente que as crianças mais pobres são aquelas que recebem as piores condições para aprender?

Por que não exigimos diariamente que todas as crianças tenham o aprendizado a que elas têm direito?

Mais ainda, por que insistimos em um modelo de ensino que, quando massificado, não funciona, não garante que todos aprendam?

Esse é um campo de estudo e análise para especialistas de várias áreas, de sociólogos a educadores, de cientistas políticos a antropólogos. Mas arrisco aqui algumas ideias a partir do que vivi nesses últimos dez anos no Todos Pela Educação.

  • 1. Educação de má qualidade mata lentamente

Um dia ruim não mata ninguém. Mas meses e anos sem ter acesso à educação de qualidade diminuem as chances de uma criança colocar seu potencial em prática, ter e realizar seu projeto de vida.

  • 2. Educação sempre fica para amanhã

Porque educação é um processo que acontece diariamente, manter o compromisso com ela exige um esforço diário – não pode haver tréguas. Mas como os resultados só são visíveis tempos depois que o esforço foi feito, outras exigências do dia a dia de recompensa mais imediata acabam atropelando a educação. Quem nunca pensou: é só um dia de aula, que mal fará eu ficar em casa hoje? Esse mesmo raciocínio contamina a política pública e as escolhas do país. Se o que um gestor público fizer hoje não resultar em mais votos amanhã, os incentivos para ele direcionar mais esforços nesse sentido diminuem.

  • 3. Educação de qualidade em larga escala é difícil

Ok, e aqueles gestores que, mesmo sabendo que a educação não trará benefícios imediatos para eles, ainda assim acreditam que precisam torná-la o centro de seu projeto? Pois bem, se isso fosse fácil, já teria sido feito. Melhorar a educação não é tarefa de uma gestão, mas de várias seguidas, articuladas, em um processo persistente e corajoso. Então, entra governo, sai governo, o esforço não produz os resultados esperados, e infelizmente acabamos nos acostumando com isso. 

  • 4. Educação de qualidade é de difícil percepção

A importância da educação parece já estar na boca de todos, mas de que educação estamos falando? Será que é apenas a valorização da vaga ou da merenda? Ter a vaga é imprescindível, a merenda pode ser a principal refeição que a criança ou o jovem fará no dia, mas eles têm direito a muito mais – têm direito a aprendizagem todos os dias.

  • 5. Educação boa mesmo, a gente aceita que é para poucos, como outros direitos

Em um país desde sempre tão desigual, nos acostumamos a situações absurdas em várias áreas, desde cadeias superlotadas, com condições sub-humanas, até a falta de transporte público decente na periferia. Não é diferente com a educação. Infelizmente, acabamos nos anestesiando, e falta nos indignarmos com a diferença de condições básicas justamente para as crianças mais pobres. Em que escolas mais faltam professores experientes? Saneamento básico? Internet banda larga? Naquelas que mais precisam.

Fica aqui esse meu desabafo. Até quando vamos tolerar que a Educação não seja de fato uma prioridade nacional?

Priscila Cruz

Priscila Cruz é fundadora e presidente-executiva do movimento Todos Pela Educação. Graduada em Administração (FGV) e Direito (USP), mestre em Administração Pública (Harvard Kennedy School), foi coordenadora do ano do voluntariado no Brasil e do Instituto Faça Parte, que ajudou a fundar.

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